Publicado em 10 de outubro de 2021 às 08:22
Mais de cem lanchas dividiam espaço nas proximidades da ponte do rio Turvo, em Capitólio (MG), à espera dos turistas no último sábado (2). Nem parecia que a represa de Furnas, que banha a cidade, estava abaixo do nível considerado ideal. >
Com apenas 13,7% de seu volume útil, conforme medição feita na terça-feira (4) pelo ONS (Operador Nacional do Sistema), Furnas vive uma severa crise hídrica. Em setembro, ela atingiu nível semelhante ao registrado em 2001, ano em que o país enfrentou racionamento de energia elétrica.>
Embora haja locais secos, como em áreas do bairro de luxo Escarpas do Lago, Capitólio é uma das cidades menos prejudicadas com a escassez de água entre as 34 banhadas pelo lago da represa.>
Isso ocorre porque ela fica mais próxima da barragem de Furnas –entre São José da Barra e São João Batista do Glória. Na região, há partes em que a profundidade do reservatório chega a ser de 70 metros, segundo prefeituras e a associação dos municípios.>
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Assim, enquanto em cidades mais distantes da barragem, como Alfenas e Areado, o lago secou e deu lugar a pasto para vacas, em Capitólio milhares de turistas circulam todas as semanas. Por não enfrentar o problema da falta de água com a mesma gravidade, a cidade se tornou a mais turística do lago nos últimos anos.>
"Quando muitos ouvem que 'Furnas está seca', acabam pensando que Capitólio também está, mas não. A represa está chegando num nível muito baixo, mas vamos continuar tendo passeios", disse Lucas Arantes Barros, secretário municipal do Desenvolvimento Econômico Sustentável (pasta que engloba turismo, meio ambiente e agricultura).>
Hotéis lotados, bares, pizzarias e restaurantes cheios e turistas ávidos por passeios de lancha e em cachoeiras compõem o cenário rotineiro da pequena cidade mineira de 8.700 habitantes, mas que chega a receber 30 mil visitantes por dia em finais de semana.>
A água em Furnas atualmente está em 753,88 metros acima do nível do mar –o mínimo para operação da barragem é de 750 metros. O patamar atual representa 8,12 metros abaixo do mínimo desejado pelas cidades para manter as atividades turísticas e econômicas sem prejuízos.>
O fato de ser uma opção de turismo a céu aberto, com risco menor de transmissão do coronavírus, portanto, também tem ajudado a manter os níveis de ocupação altos. Tanto que a cidade, na contramão da tendência da pandemia, registra uma série de inaugurações de restaurantes desde o ano passado e, hoje em dia, tem mais estabelecimentos do tipo do que antes da Covid-19.>
Só na região do Turvo, cada uma das 110 lanchas que a Folha contou no local transporta ao menos 12 turistas e faz três viagens diárias. O visitante paga em média R$ 100 para conhecer, em três horas, o vale dos Tucanos, a Cascatinha, a lagoa Azul, o bar flutuante que existe no reservatório e os cânions.>
Embora o lago de Furnas tenha mais de cem quilômetros de extensão, é em Capitólio que ocorre uma cena curiosa, conta a guia de turismo Emily Vilela.>
"Os barcos precisam fazer rodízio para não lotar os lugares visitados. Há congestionamento.">
Os cânions estão entre os pontos mais disputados. No entorno dessas formações naturais, a diversão nas lanchas se sustenta no tripé música em alto volume, isopor cheio de bebida alcoólica e selfies, dezenas de selfies. Para chamar ainda mais atenção, algumas embarcações têm buzinas de caminhão instaladas.>
"Não falta água em lugares como aqui e na praia. Por mais baixo que [o nível] esteja, ainda há muita água. Como é mais perto e mais barato que a praia, venho sempre para cá", disse o consultor Samuel Souto, de Belo Horizonte.>
A maioria dos turistas que visitam Capitólio é da capital paulista, de cidades do interior de São Paulo e da capital mineira, segundo as agências de turismo locais.>
"Depois de tanto tempo em casa [por causa da pandemia], precisamos de ar livre, sair. E vir para cá era uma opção não tão cara e aparentemente mais segura", afirmou a comerciante Maria Amélia Bortolo, dona de uma loja de roupas em Campinas (73 km de SP), após fazer uma selfie no chamado mirante Desconhecido. O local é um dos de onde é possível observar a movimentação de lanchas nos cânions.>
Coletes salva-vidas até existem nos barcos, mas é raro ver alguém usando, inclusive crianças –em 2019, cinco pessoas da mesma família morreram afogadas no lago. Já as máscaras, recomendadas contra o coronavírus, também ficam de lado. Praticamente só são usadas por agentes de turismo e funcionários dos estabelecimentos.>
Apesar de o lago seguir chamativo para os turistas, atrações como cachoeiras já não são como antes. Algumas quedas d'água secaram nos últimos tempos, o que prejudica os roteiros oferecidos por operadoras.>
A situação acende um alerta, uma vez que o setor de serviços, alavancado pelo turismo, é responsável por aproximadamente 70% da economia local. Isso significa que, sem Furnas, em um cenário em que houvesse menos água, a situação econômica da cidade (e de toda a região) poderia ficar muito difícil.>
Porém, para o secretário-executivo da Alago (associação dos municípios) e vice-presidente do comitê da bacia hidrográfica de Furnas, Fausto Costa, o lago em Capitólio ainda apresenta outras riquezas, como as rochas –que também são um atrativo para os visitantes da região.>
"Para o turismo, Capitólio não tem problema algum. Nela, o lago cheio é lindo, vazio é maravilhoso. Mas as outras cidades sofrem muito", disse.>
Enquanto Capitólio vê o turismo deslanchar, em outros locais, como Alfenas, Carmo do Rio Claro, Formiga e Areado, o lago recuou até oito quilômetros, o que deixou píeres de hotéis sem utilidade e prejudicou atividades como a piscicultura. Essas cidades ficam em áreas mais planas, onde o lago, quando cheio, é mais raso.>
Para associações ligadas ao turismo e ao comércio, o total de empresas atingidas com a seca de Furnas chega a 5.000, com 20 mil empregos a menos no setor.>
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