Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Literatura

Quem é Cida Pedrosa, a poeta vencedora do Jabuti que também luta na política

'Solo para Vialejo', livro que rendeu a ela o troféu literário, surgiu durante um tratamento de câncer de tireoide
Redação de A Gazeta

Publicado em 

11 dez 2020 às 16:01

Publicado em 11 de Dezembro de 2020 às 16:01

A poeta pernambucana Cida Pedrosa, de
A poeta pernambucana Cida Pedrosa, de "Solo para Vialejo" Crédito: Divulgação
"Aqui jaz Maria, que em dias vermelhos deu a todos com sorriso azul." Seria assim o epitáfio de Maria Aparecida Pedrosa Bezerra se ela tivesse morrido ali, aos 15 anos, quando o publicou em seu primeiro livro. A despedida inventada, diz, era um sinal de clareza sobre o "mundo macho" que a cercava.
A Cida Pedrosa de hoje, de 57 anos, olha para o escrito fúnebre e tem dúvidas se acha bom. Mas a vencedora do prêmio Jabuti de melhor livro do ano com seu "Solo para Vialejo", e recém-eleita vereadora no Recife, diz que, com ou sem qualidade, a "porrada" contida no epitáfio é o que importa.
Ela conta que faz terapia há 20 anos. No consultório, trata a autoestima. Não sabe se sofre da famosa síndrome da impostora, mas acha que tem angústias. "A sociedade nos futuca para baixo. É uma construção para que a gente se boicote", diz.
Ser mulher, segundo Pedrosa, é estar em vigília permanente. "Porque o machismo é estrutural, entende? E eu tenho isso claro desde a mais tenra idade. Sinto na pele desde jovenzinha." "Quando você é selecionada em um prêmio, é como se o status quo dissesse que você tem estatura literária. E isso nesse mundo machista lhe põe em um outro patamar", contextualiza, ao dizer que está "felicíssima" com o Jabuti.
"Não deixa de ser um coroamento da carreira, até porque escrever em um país onde a leitura não é levada a sério, onde o presidente quer taxar o livro, é uma luta insana."
O prêmio, diz, não é só seu. "Minha inquietude nunca me permitiu escrever minha obra sozinha. Então são os negros, os índios, é a minha busca por mim mesma, é uma mulher nordestina comunista e militante, todos eles ganhando o prêmio juntos."
Enquanto narra sua história, ela se interrompe. "Não sei se estou me fazendo entender ou se sou muito lírica." O discurso bem encadeado e plenamente inteligível ganha de fato contornos de ficção literária em alguns trechos.
Como, por exemplo, quando conta que é a 15ª filha dos agricultores Francisco e Isabel, e que o sítio onde viveu até seus 14 anos, em Bodocó, no sertão pernambucano, não tinha energia elétrica nem banheiro. "A gente tomava banho de cuia."
"Meu pai era muito danado e teve mais seis filhos. Somos 21. Já tem cinco no céu, das duas famílias. Minha mãe e meu pai brigaram muito, ele era machista e se dava ao desfrute de ter duas mulheres. Mas ela nunca deixou a gente brigar com os meninos."
A poeta se mudou para a capital e foi estudar no colégio que um dos irmãos mantinha. No corpo docente, além de alguns ex-presos políticos, havia também Flor, irmã de Pedrosa, que deu a ela suas primeiras aulas de literatura. Em 1981, com colegas de classe, criou o Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco.
Nos primeiros anos do curso de direito, conta que vivia infeliz. "O que me salvava era a escrita. No fim, me apaixonei porque percebi que podia ser uma advogada de direitos humanos porreta."
O trabalho a levou a Palmares, na região da mata, onde se casou. Ela e o marido eram ameaçados, conta, por causa do confronto direto com o patronato. "Eu engravidei, houve uma perseguição muito forte de carros atrás da gente e perdi meu bebê de sete meses. Quatro meses depois, mataram ele."
Pedrosa se casou outras duas vezes. Primeiro com um advogado, com quem teve dois filhos -Francisco, de 26 anos, e Vladimir, de 23. "Um é meu lado sacro, quando saí da maternidade lavei o pé dele nas águas do rio São Francisco."
"O outro é meu lado revolucionário, em homenagem a Maiakovski." Dois anos depois de o marido morrer de câncer, Pedrosa conheceu o editor Sennor Ramos. "Ele é 14 anos mais novo e entende tudo de literatura popular."
"Solo para Vialejo" surgiu enquanto ela tratava um câncer de tireoide. Fala de negros e índios, das dores da mãe, dos olhos azuis do pai, das memórias individuais e coletivas. "Faço a repetição de três versos porque são os acordes do blues e cinco porque é a escala pentatônica."
Segundo Pedrosa, poesia e política se tornaram coisas indissociáveis. "Tem gente que acha isso péssimo. Que a poesia não se presta a isso. Mas, para mim, minha poesia tem função social. A diferença é que não sou panfletária. Panfleto é panfleto, poesia é poesia."

Este vídeo pode te interessar

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Corpo de pescador desaparecido é encontrado em rio em Itapemirim
Imagem BBC Brasil
Chocolate no Brasil está pior? Como saber se você está comendo um Ovo de Páscoa 'fake'
Imagem de destaque
Idoso pede medida protetiva contra a filha após briga por dinheiro no ES

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados