Fonte inesgotável de conteúdo, os dramas adolescentes podem assumir várias formas – podem ser a mesma história, atualizada com os tempos, como “Malhação”; podem assumir a forma de um “whodunit”, o famoso “quem matou?”, como em “Elite”; ou pode apostar na complexidade da adolescência para criar dramas interessantes, como os que eternizaram John Hughes (1950-2009).
A série britânica “Sex Education”, já disponível na Netflix, faz reverência ao trabalho de Hughes, como admitido pela própria criadora, Laurie Nunn, mas consegue ter sua própria identidade ao mesclar a fórmula americana de comédias adolescentes à cultura britânica.
Como o nome indica, tudo na série parece girar em torno de sexo. A trama acompanha Otis (Asa Butterfield), um jovem de 16 anos, filho da terapeuta sexual Jean (Gillian Anderson). Otis é um outsider, um daqueles sujeitos invisíveis que, ao lado do melhor amigo, Eric (Ncuti Gatwa), parece estar alheio à revolução hormonal que atingiu a escola em que estudam.
As coisas mudam para Otis quando, por um acaso, ele se aproxima de Maeve (Emma Mackey), uma menina descolada e temida na escola. Ela enxerga no jovem o potencial de fazer dinheiro ao explorar o boom sexual que os cerca e Otis passa, então, a vender conselhos de uma maneira não muito diferente do que sua mãe faz com seus pacientes.
EXPECTATIVAS
Por mais que pareça (mais) uma série sobre problemas adolescentes, “Sex Education” é, na verdade, um drama sobre pessoas. Todos os personagens principais e até alguns coadjuvantes de mais destaque têm dramas pessoais desenvolvidos em algum momento da trama.
Otis, por exemplo, mesmo se tornando uma espécie de “guru”, ainda é reprimido sexualmente falando; Maeve, em contrapartida, é bem resolvida sexualmente, mas tem dificuldades para se abrir com as pessoas... E assim a série caminha, com gays assumidos em busca de parceiros, héteros que não sabem como agir, mulheres que se preocupam em fingir para agradar os parceiros mas não conhecem o próprio corpo... Até Jean, uma terapeuta sexual, tem seus problemas na narrativa.
“Sex Education” acerta ao mostrar que todo mundo tem problemas, do atleta mais popular da escola à menina “esquisitona”. É justamente no uso desses estereótipos que a série quebra as barreiras pré-estabelecidas e desperta uma inusitada identificação do público com personagens de perfis diferentes daqueles com os quais normalmente nos identificamos – enxergar as dores dos outros e aprender com o diferente já é um passo para uma sociedade com mais empatia, e a série cumpre bem o papel de despertar isso.
O roteiro dá algumas derrapadas por alguns clichês, mas isso talvez funcione para não afastar o público de comédias românticas mais tradicionais. “Sex Education” prova que não é necessário ofender para fazer humor ou ser esdrúxulo para falar de sexo; e acredite, a série fala (e mostra) sexo dentro das possibilidades de um show voltado para adolescentes. Um acerto gigante da Netflix.