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Com o Leão de Ouro, 'Coringa' sai na frente para o Oscar

Brasil ganhou dois prêmios no Festival Veneza, para o documentário de Bárbara Paz e "A Linha", vídeo em realidade virtual

Publicado em 09/09/2019 às 20h03
Atualizado em 15/01/2020 às 10h27
29/08/2019 - Joaquin Phoenix como o Coringa. Crédito: Divulgação/Warner Bros
29/08/2019 - Joaquin Phoenix como o Coringa. Crédito: Divulgação/Warner Bros

Nas últimas edições, o Festival de Veneza voltou a ganhar força na briga com Toronto para estrear os futuros vencedores do Oscar. Em 2018, Roma saiu com o Leão de Ouro e terminou com três estatuetas, inclusive direção. No ano anterior, A Forma da Água levou o Leão e depois quatro Oscars, inclusive filme e direção. Pois Veneza tem a chance de dominar novamente a conversa sobre a premiação mais importante do cinema americano ao dar o Leão de Ouro para Coringa, de Todd Phillips, uma decisão até surpreendente, mesmo com todo o barulho que o filme fez no festival. Primeiro porque, sendo um longa que se passa no universo de HQs da DC, não é o típico "filme de festival", pelo menos não no caso dos três grandes, Berlim, Cannes e Veneza - Toronto sempre foi chegado a uma produção mais comercial. Segundo, porque o júri era presidido pela cineasta argentina Lucrecia Martel, que faz filmes bem distantes do cinema hollywoodiano.

E, a bem da verdade, nem a Academia de Hollywood costuma levar a sério as produções inspiradas nos universos da Marvel e da DC que têm dominado os cinemas, indicando-os apenas em categorias técnicas. Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), de Christopher Nolan, considerado um marco, não concorreu nem como melhor filme do ano, nem como direção. Apenas Heath Ledger levou o Oscar de ator coadjuvante, coincidentemente por sua interpretação do Coringa. Somente no ano passado um longa saído do universo das HQs competiu como melhor produção: Pantera Negra, de Ryan Coogler, que, independentemente da qualidade que possa ter, veio com uma importância cultural grande, com seu elenco majoritariamente negro.

Por derrubar tabus, a vitória põe Coringa como candidato sério para o Oscar, descolando-o das "produções de quadrinhos". Até porque Coringa não é um filme derivado dos quadrinhos como os outros. O longa quase não tem ação e é um drama duro e triste sobre a transformação de um homem de classe social baixa, com problemas mentais e sonhos irrealizáveis em um assassino cruel, com uma das melhores atuações da carreira de Joaquin Phoenix. Levanta questões relevantes para a sociedade hoje.

Lucrecia Martel justificou a escolha na coletiva após a cerimônia de entrega do Leão de Ouro, no sábado. "É incrível que uma indústria cujo principal foco é o negócio tenha corrido tamanho risco com Coringa. Fazer para esse público um filme que é uma reflexão sobre os anti-heróis, mostrando que talvez o inimigo não seja o homem, mas o sistema, me parece bom para os Estados Unidos e para o mundo todo."

Todd Phillips não quis "definir o filme". "A visão de Lucrecia Martel está correta e compartilho dela. Fico feliz que as pessoas tenham entendido o que estávamos tentando fazer. Mas não quero delimitar as interpretações."

Coringa ainda vai gerar muita discussão - algumas pessoas acusaram o filme de defender um "incel", o jovem branco que não consegue lidar com suas frustrações e comete atos de violência. Mas, sem dúvida, são debates bem-vindos. A vitória em Veneza, com presença inclusive de Joaquin Phoenix, é um sinal de que a campanha pelo Oscar começou e bem.

JAGGER

Depois de Brad Pitt, Meryl Streep, Catherine Deneuve e Johnny Depp, o 76.º Festival de Veneza terminou com um rock star. Mick Jagger, recuperadíssimo da cirurgia no coração em abril, apareceu no Lido para apresentar o filme de encerramento, The Burnt Orange Heresy, dirigido pelo italiano Giuseppe Capotondi e exibido fora de competição. "É o menor papel do filme, mas é importante, porque é o catalisador das ações do protagonista", disse Jagger na coletiva de imprensa. "Atuar e fazer show são performances. Adorei estar no filme porque o roteiro era interessante, diferente e surpreendente."

Mick Jagger joga beijos para fãs durante sua chegada do lançamento do filme 'The Burnt Orange Heresy' na 76ª edição do Festival de Cinema de Veneza, na Itália, neste sábado, 7 de setembro de 2019.                               . Crédito: Joel C Ryan/AP/AE Conteúdo
Mick Jagger joga beijos para fãs durante sua chegada do lançamento do filme 'The Burnt Orange Heresy' na 76ª edição do Festival de Cinema de Veneza, na Itália, neste sábado, 7 de setembro de 2019. . Crédito: Joel C Ryan/AP/AE Conteúdo

Jagger interpreta Joseph Cassidy, um colecionador de arte e galerista que faz uma proposta ao crítico James Figueras (Claes Bang, de The Square): que ele roube uma pintura do artista recluso Jerome Debney (Donald Sutherland) em troca de uma entrevista. Figueras vai até a propriedade de Cassidy no Lago de Como acompanhado da misteriosa Berenice (Elizabeth Debicki). "Ela tem uma pureza que achei bonita", disse a atriz de Viúvas. "Tem uma voz interior, mas deixa de ouvi-la quando conhece James. Acho que as mulheres vão entender isso."

O filme é baseado no livro de Charles Willeford e é um noir um tanto desconstruído. "Gostei da história porque fala de verdade, que é uma questão séria hoje em dia", disse Capotondi.

No encerramento do festival, um grupo de jovens tomou pacificamente o tapete vermelho para protestar contra a falta de ação contra a crise climática. Jagger apoiou a atitude. "Fico feliz que estejam fazendo isso. Eles que vão herdar o planeta. Estamos numa situação difícil no momento, especialmente nos EUA, onde todos os controles ambientais, que já não eram suficientes, foram retirados pela administração atual."

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