Para alcançar a pontuação máxima na redação do Enem, a preparação vai além de fórmulas decoradas. Ela exige a construção de um repertório sociocultural autêntico, o domínio da estrutura e a percepção de que o texto do Enem é, acima de tudo, um exercício de constante treino e análise crítica.
Na última edição da prova, nenhum aluno do Espírito Santo conquistou a nota mil na redação. Por isso, a reportagem de A Gazeta ouviu estudantes que se destacaram pela forma de encarar a prova, vestibulandos na reta final dos estudos e um especialista em redação.
De acordo com o professor de redação Heitor Campos, uma das maiores preocupações dos alunos é o medo de esquecer um conceito sociológico ou filosófico específico para o tema proposto. No entanto, o segredo para impressionar a banca examinadora está na capacidade de fazer uma análise crítica a partir do que já faz parte da bagagem cultural e das vivências do estudante.
“Às vezes, eles acham que repertório é só filósofo. Mas, por exemplo, muita gente cita letras de canções que ouve regularmente, como letras de rap que fazem denúncias e críticas sociais, além de filmes e séries. Isso é tanto repertório quanto a referência a um filósofo. Então, o objetivo é manifestar essa sensibilidade de perceber um ponto de contato com o tema nessas experiências que eles têm no dia a dia, por mais banal que pareça”, comenta.
Para o ex-aluno do Ifes e vestibulando de Medicina João Daniel Ferreira, de 19 anos, esse uso de referências populares é a melhor forma de demonstrar maturidade intelectual e autoria. "Tudo o que nós [estudantes] sabemos é útil. Num texto tão padronizado quanto o do Enem, marcas de autoria são muito valorizadas."
Já citei numa redação 'Cocoricó', que é um programa infantil. Quando você analisa que o programa retrata uma realidade rural marcada pela falta de escolaridade de maneira idealizada, você mostra análise crítica. O mesmo vale para identificar no filme 'Minha Mãe é uma Peça' a estigmatização da figura materna ou o humor como denúncia social
João Daniel Ferreira, vestibulando
A percepção é ratificada pelo professor Heitor, que explica algumas das diretrizes oficiais da Cartilha do Participante do Enem. O especialista faz um alerta contra a prática de redações de bolso, ou seja, a inclusão, no texto, de argumentos ou referências teóricas que não estejam diretamente relacionados ao assunto.
“Para alcançar os 200 pontos na Competência II [compreensão do tema], o uso de repertório precisa ser produtivo, sendo conectado diretamente ao tema. E o aluno só precisa se preocupar em trazer teóricos ou referências uma única vez no texto, desde que bem articulados ao longo do resto da redação”, orienta Heitor.
A experiência de Ana Beatriz Setrel no Enem 2025, graduanda de Direito na USP, reforça que a preparação para a redação exige consistência no treino, organização de repertórios por eixos temáticos e flexibilidade estrutural. Ao longo do ano, a estudante mantinha uma rotina de escrever até duas redações por semana, dividindo as correções entre a professora de sua escola e um cursinho focado em escrita.
O maior pulo de desempenho que eu tive na redação foi quando parei para organizar e decorar os meus próprios repertórios por eixo temático, entendendo o que poderia usar e o que cabia no meu texto. Escrever até duas redações por semana e ter uma estrutura flexível me deu a segurança de mesclar na hora da prova o que fazia mais sentido
Ana Beatriz Setrel, graduanda da USP
É seguindo essa lógica que se pode alcançar nota máxima na Competência IV, responsável por avaliar os mecanismos linguísticos de coesão textual. Em vez de recorrer a "fórmulas" memorizadas ou conectivos encaixados de forma engessada, o Inep exige que o candidato articule parágrafos e frases de forma fluida, utilizando operadores argumentativos e diversificação vocabular para evitar repetições. O próprio MEC alerta na cartilha que o uso artificial ou em excesso de conectivos penaliza o texto, pois a coesão depende de relações lógicas reais entre as ideias.
Na reta final, o professor aconselha que os candidatos não percam tempo tentando adivinhar o tema exato, mas que usem a coletânea de textos motivadores como um "GPS seguro" para orientar a argumentação e engrenar os conectivos de transição.
A recomendação, nos últimos dias, é refazer redações antigas, comparando os três últimos textos para identificar padrões de erros gramaticais e estruturais recorrentes, além de realizar simulados gratuitos oferecidos pelo Ministério da Educação (MEC) e por plataformas de ensino para ajustar o tempo de prova.
Além das dicas específicas das Competências II e IV, com a experiência do professor Heitor e os critérios da Matriz de Referência do Inep, o que separa uma nota 920 ou 960 da nota mil é o rigor absoluto nas seguintes competências:
Competência I (Modalidade Escrita Formal): A regra é rígida: para garantir os 200 pontos, o participante pode cometer no máximo dois desvios gramaticais ou de convenção da escrita (como acentuação, ortografia ou concordância). Ao terceiro desvio, a nota cai automaticamente 40 pontos.
Competência III (Projeto de Texto e Foco Temático): O candidato deve planejar previamente o texto, selecionando dois argumentos principais. Além disso, para evitar o tangenciamento (abordagem parcial do tema), é indispensável que todas as palavras da frase temática apareçam no texto pelo menos uma vez. O tangenciamento é um erro grave que limita a nota das Competências II, III e V a no máximo 40 pontos cada.
Competência V (Proposta de Intervenção): A proposta deve conter obrigatoriamente cinco elementos: agente, ação, modo/meio, finalidade e detalhamento. Conforme alerta o professor Heitor, a omissão do detalhamento é a falha mais recorrente entre os vestibulandos. Uma estratégia eficiente para não perder esses pontos é detalhar o papel do agente público no contexto da tese defendida.