Letícia Gonçalves (Interina)
Um dos pré-candidatos à Presidência da República do amplo escopo que se autointitula de centro, Geraldo Alckmin disparou na sexta-feira (8) mais uma parte da artilharia que tem utilizado contra o deputado federal Jair Bolsonaro, situado bem à direita do espectro político. “Entre o falar e o fazer há um abismo, mas nós fizemos. Saímos de 35 homicídios para 8,02. É menos que Miami e Washington”, afirmou, nesta sexta-feira (8), em visita ao Espírito Santo, referindo-se à sua atuação como governador de São Paulo e, sem citar nomes, comparando-se ao capitão da reserva do Exército.
A declaração do tucano foi feita logo após a coluna perguntar se a defesa do porte de arma para produtores rurais e a inclusão de um general na equipe, já explicitadas por Alckmin, são manifestações legítimas dele mesmo ou somente foram sacadas para fazer frente a Bolsonaro, que lidera pesquisas eleitorais – em cenários sem o ex-presidente Lula – enquanto o ex-governador de São Paulo patina nas intenções de voto. Alckmin respondeu apenas “não” e emendou a falar de números da segurança pública.
A escolha do tema não é aleatória. É esse o filão da campanha do deputado federal, que aposta em chavões extremistas e frases de efeito para cativar os eleitores e não tem compromisso ideológico com o nanico PSL, ao qual se filiou recentemente. A sigla, aliás, carece de ideologia à qual pudesse se fiar.
O mesmo não se pode dizer do PSDB, que tem 30 anos de história e, apesar de constantes divisões internas, carrega a social-democracia no nome. A polarização com o PT deu ares de centro-direita à legenda, mas daí a defender armar a população – ou parte dela – e a afirmar que os petistas colheram o que plantaram após os tiros contra os ônibus da caravana lulista, em março, vai uma grande distância. (Em relação a esse último ponto, Alckmin, depois, contemporizou e registrou que toda forma de violência deve ser condenada).
Se o tucano mantiver a campanha na direção atual – é o presidente nacional da legenda – , essa corrida presidencial pode completar a mudança de pele, fixando o PSDB de uma vez por todas na direita ideológica.
O presidente estadual da sigla, o vice-governador César Colnago, no entanto, não crê nessa hipótese. “Ele (Alckmin) sempre foi um social-democrata e expressa esse sentimento”, avalia. O senador Ricardo Ferraço endossou as propostas do ex-governador de São Paulo. “Por certo nós não vamos reduzir a violência no Brasil armando as pessoas. A hora que nós armarmos as pessoas nós vamos assistir a uma explosão da violência. Ele (Alckmin) defendeu (o armamento) numa situação específica, de um proprietário rural no interior do país, num lugar distante. Se há um assalto não tem delegacia, não tem polícia perto. Não é possível que ele vá ver o fruto do seu trabalho ser roubado sem poder reagir”.
Nas redes sociais, o ex-governador adotou um tom mais jocoso e postou (na verdade, foi a equipe dele que publicou) o meme do John Travolta confuso em busca das propostas para a segurança pública de Bolsonaro.
Colnago diz que Alckmin está trazendo o tema da segurança ao debate. O fato é que o assunto está posto há tempos, mas agora pode render um duelo eleitoral.
Encontro e desencontro
O governador Paulo Hartung, que almoçou com Geraldo Alckmin na residência oficial da Praia da Costa, chegou à Feira Internacional do Mármore e Granito, ontem, na Serra, já no início da noite, quinze minutos após o tucano deixar o local.
“Prioridades”
Questionado, no local, pela coluna se iria apoiar Alckmin à Presidência da República, Hartung riu e desconversou: “Vamos ver pedra agora, é hora de curtir um pouquinho. Trouxe minha esposa para ver a beleza do design, vamos passear”.
Sexta-feira muito louca
Enquanto o pré-candidato do PSDB adentra na seara da segurança pública, Bolsonaro, com histórico estatista, tem acenado para o mercado e defendido um Estado menor. Ontem, um dos coordenadores da campanha do deputado, Onix Lorenzoni, disse que o pré-candidato do PSL pretende “cortar pela metade” o número de ministérios.
À esquerda
O prefeito de Vila Velha, Max Filho, classifica Alckmin como de centro, mas se coloca em outra posição. “Eu estou à esquerda do PSDB”.
Premonição?
O deputado federal Evair de Melo, do PP, aposta que o principal rival de Bolsonaro na disputa será Ciro Gomes, do PDT. “Se ele chegar a 15% nas pesquisas, ele vira. Ciro Gomes vai ser o presidente”, afirma o parlamentar, que diz ficar longe de costuras eleitorais. Uma nova pesquisa Datafolha deve ser divulgada amanhã. A ver.