“Quanto mais tecnologia, mais precisamos de pensamento crítico.” A afirmação da jornalista Renata Ceribelli resume um contexto em que novas ferramentas transformam a maneira de comunicar, mas não substituem a capacidade humana de interpretar, selecionar e atribuir significado à informação.
Em entrevista, Renata — repórter especial da TV Globo— compartilha visões sobre as mudanças das eras no mercado de trabalho, em especial no jornalismo, e como a rapidez das novas tecnologias demandam ainda mais a sensibilidade humana.
Ela fala sobre adaptação, curiosidade e aprendizado, e afirma que a credibilidade jornalística sempre vem da mesma fonte: “apuração, checagem da informação, um olhar sempre desconfiado e muita responsabilidade antes de levar qualquer notícia ao público” , destaca.
A jornalista será um dos destaques do Painel EducarES sobre longevidade, IA e novo mercado de trabalho, sediado pela Rede Gazeta, em Vitória, onde apresenta a palestra “Da Máquina de Escrever ao ChatGPT: a Competência Eterna”. Confira a entrevista:
Renata, você viveu a passagem da máquina de escrever ao ChatGPT. O que mudou em tudo isso? E o que nunca mudou?
Mudou principalmente a velocidade desde a apuração até a forma de trabalhar, de consumir informação e se comunicar. Quando eu comecei, no início dos anos 80, não tinha internet, Google, celular, rede social. A gente escrevia na máquina de escrever, pesquisava em bibliotecas e íamos atrás da informação muito mais em campo do que vamos hoje.
A reportagem dependia muito mais de presença física, telefone fixo.
Hoje a informação circula em segundos. E agora a IA estar provocando uma nova revolução no jeito de trabalhar. Ela é uma continuação, numa escala mais profunda, da transformação iniciada pelo computador e acelerada pela internet. A IA funciona hoje como uma aceleradora ou multiplicadora de produtividade, porque pesquisa, transcreve, traduz, edita e cruza dados em segundos!
Mas tem uma coisa que não mudou: gente continua precisando de gente. Continua precisando de alguém que faça pergunta boa, que tenha senso crítico, sensibilidade, ética, repertório. A tecnologia muda o formato. O olhar humano continua sendo o diferencial.
A sua palestra fala de uma “competência eterna”. Qual seria essa competência: curiosidade, adaptação, repertório ou coragem de aprender de novo?
Acho que é adaptação. Mas adaptação sem curiosidade não existe. Sem coragem de reaprender também não.
O mundo mudou rápido demais. E vai mudar ainda mais. Então o profissional mais forte hoje não é o que sabe tudo. É o que continua aprendendo.
Eu vivi várias fases em que as pessoas diziam: “isso não vai pegar”, “isso vai acabar com a profissão”, “isso vai piorar a qualidade”. Falaram isso do computador, da internet, das redes sociais… e agora da IA.
Quem consegue continuar curioso atravessa melhor essas mudanças.
Quando falamos de educação e jornalismo, quais estratégias você adota para manter credibilidade em um mundo acelerado e hiper fragmentado?
Hoje existe uma ansiedade enorme por velocidade. Todo mundo quer publicar primeiro, opinar primeiro, responder primeiro. E uma tendência a acreditar no que se lê e se vê muito rápido.
Mas a credibilidade ainda nasce da mesma fonte: apuração, checagem da informação, um olhar sempre desconfiado e muita responsabilidade antes de levar qualquer notícia ao público.
Hoje, redobrar a atenção com a checagem de uma informação ficou ainda mais importante, porque a IA pode produzir textos e imagens falsas muito convincentes.
Então eu acho que a gente vive um momento curioso: quanto mais tecnologia, mais temos que ficar atentos e desenvolver o pensamento crítico .
Em algum momento da sua carreira você sentiu medo de ficar para trás? Como lidou com isso?
Claro. Várias vezes. Mas nunca paralisei porque sou curiosa.
Quando chegaram os computadores nas redações, teve gente que achava que aquilo ia destruir o texto jornalístico. Depois veio a internet, depois as redes sociais… agora a IA.
Toda mudança grande assusta porque ela mexe com a nossa identidade profissional. Dá medo de não acompanhar, de perder espaço, de não entender o novo.
O que eu aprendi é que o medo piora quando você fica parado olhando. Quando você começa a experimentar, estudar, testar… a mudança deixa de ser um monstro. E temos sempre que lembrar que mudança tecnológica não tem volta.
Que competência humana ficou mais valiosa justamente porque a tecnologia avançou?
Discernimento.
Hoje qualquer pessoa tem acesso à informação. O difícil é saber o que é relevante, verdadeiro, profundo.
A IA entrega resposta rápida. Mas rapidez não significa entendimento.
Então ficou muito mais valioso quem consegue interpretar contexto, perceber nuances, conectar ideias, entender o comportamento humano.
Quem pensa e alimenta as máquinas somos nós, sempre. Para só depois, elas trabalharem para nós.