Cenas de filme-catástrofe, só que reais. Ao fechar os olhos, qualquer pessoa que tenha parado para assistir às imagens do exato momento do rompimento da barragem de Brumadinho, exibidas ontem em primeira mão pela TV Globo, permanece atordoada pela dimensão da tragédia. Impressionam por mostrar o terror vivido pelos funcionários da Vale e de terceirizadas diante do tsunami de lama. Até agora, contabilizam-se 115 mortos e 248 desaparecidos. Sem meias palavras, um extermínio.
Brumadinho ruiu pelo descaso empresarial embalado pela omissão estatal. A cada novo episódio em que o brasileiro é obrigado a encarar essas anomalias recorrentes nas relações entre o público e o privado, fica mais evidente que no país há um limbo onde descansam as responsabilidades que deveriam nortear gestão de atividades de risco.
É mais que um jogo de empurra, é a indolência incentivada pela certeza da impunidade. O despreparo é a única regra. É o caso da represa de Duas Bocas, em Cariacica, uma das três localizadas no Espírito Santo que apresentam problemas estruturais, segundo relatório da Agência Nacional das Águas (ANA).
O desleixo é total. Ninguém sabe dizer quem é o responsável oficial pela segurança e manutenção do reservatório erguido há 70 anos. A Cesan está a cargo da operação da unidade, não da governança.
A situação é tão esdrúxula que o documento da ANA indica que a responsável pela unidade é a Secretaria de Patrimônio do Estado. O absurdo é que a pasta já até foi extinta. Quem seria, portanto, o pai da criança?
E não para por aí: não existem protocolos de segurança a ser seguidos. Pior: o Estado não sabe nem sequer quantos moradores estariam na rota da água, caso houvesse uma ruptura da construção. Quem vive nas redondezas nunca recebeu orientações sobre procedimentos de segurança ou planos de emergência. Está jogado à própria sorte, em muitos casos sem saber que está em risco.
A tragédia da Samarco, em Mariana, não foi suficiente para corrigir essas omissões. Investimentos em prevenção continuam sendo tratados com desdém inaceitável, o que acabou levando ao caso Brumadinho, cenário de uma matança sem proporções. Mesmo com a dimensão dessa violência, nada impede que uma nova catástrofe aconteça, caso não se supere a própria inépcia.