Em menos de um ano, o Brasil registrou a prisão de dois ex-presidentes. Episódios que não são corriqueiros em democracias consolidadas e, portanto, devem ser encarados com a atenção que merecem. Mas há uma reação quase imediata, de demonização da política, que é perigosa e não pode se espraiar neste momento tão crítico para o país. É preciso reconhecer os efeitos traumáticos de Michel Temer e Lula estarem atrás das grades, sem contudo condenar a política ao ostracismo, tirando dela o protagonismo na intermediação de interesses em sociedade. É hora de entender como esses reveses podem servir como aprendizado.
Assim, reconhece-se que há algo muito errado num país que, além dessas prisões, acumula dois processos consolidados de impeachment em menos de três décadas. Mas também há de se concordar que existe saúde institucional suficiente para garantir que se faça justiça, sem distinção. Um país que não poupa seu alto clero, quando envolvido em malfeitos.
Há forças políticas mal-intencionadas que, de modo contumaz, traem o pacto social que, num mundo ideal, deveria guiar a forma como representantes eleitos se relacionam com os bens públicos. Se a ética se perdeu em algum canto de nossa história, é preciso esticar os braços para recuperá-la. Mas não sem o envolvimento da política. E de políticos comprometidos com o bem comum. Sim, eles existem.
Por isso é tão urgente discutir a relação da sociedade com seus representantes. Temer simboliza a velha política, a liderança que flana entre o Executivo e o Legislativo, mas com propósitos patrimonialistas que acabam arrastando as articulações para os subterrâneos, dando margem a ilícitos. Não deve ser assim. Mas, diferentemente do que prega Jair Bolsonaro, a relação de um governo com os parlamentares não é sempre nociva, pelo contrário, ela é fundamental. Sua gestão anda patinando justamente por, ao propor uma nova política, acabar não fazendo política alguma. Não encontra a própria agenda pragmática com o Congresso. Enquanto isso, a reforma da Previdência permanece dormente, assim como o próprio país.
O combate à corrupção não pode parar, mesmo que continue a causar feridas que precisarão ser tratadas, caso a caso. Mas também é fundamental virar a página, encontrar a governabilidade que mostre um caminho em que política e interesse comum estejam cada vez mais afinados.