“Parece um filme de terror”, desabafou, aos prantos, a sogra de um dos três mortos no ataque no alto do Morro do Moscoso, no Centro de Vitória. Não é exagero. A brutalidade do episódio chega a superar a da ficção justamente por ser a realidade nua e crua dos moradores da região, incluindo também a vizinha Piedade. Não há consolo para quem conhece a fundo o significado da palavra “desamparo”.
E janeiro não deu trégua, após um 2018 violento nas comunidades da região. A noite da última segunda-feira já está marcada como uma das mais sangrentas, menos de um mês depois de a base fixa da Polícia Militar ser inaugurada na parte baixa do Morro da Piedade. O funcionamento da instalação não foi capaz, contudo, de interromper a selvageria que tem vitimado também inocentes, aterrorizando os moradores a ponto de abandonarem suas casas.
Os dois suspeitos da emboscada que deixou também dois feridos estão foragidos. O alvo da ação seria um traficante rival. “Como não o encontraram, exterminaram quem encontraram. Infelizmente, essa ação de extrema violência foi demonstração de poder deles”, explicou o delegado Janderson Lube. O envolvimento das vítimas com o alvo dos bandidos é investigado pela polícia, o que não diminui a barbárie.
A fala do delegado deixa evidente que a ousadia dos criminosos não diminuiu com a presença da PM no morro vizinho. E isso é embaraçoso, com a atuação policial não surtindo o efeito esperado. O massacre de segunda-feira foi mais um atrevimento inaceitável e mostra que anda faltando autoridade.
A guerra nos morros vem mudando a configuração do tráfico nas comunidades do Centro, sem que as forças de segurança consigam antecipar seus passos. O combate à violência do tráfico exige políticas de Estado, perenes, que não se desmantelem a cada novo governo. Prefeitura, governos estadual e federal precisam se fazer presentes, dentro de suas atribuições, para que mortes tão brutais quanto as de segunda-feira ou cenas de moradores abandonando suas casas para fugir da violência fiquem definitivamente no passado. É uma desmoralização que precisa acabar.