No último sábado (18), o destino de Thaís de Oliveira, de 22 anos, cruzou-se com as ferozes leis do tráfico. A família ia buscar um bolo de aniversário em Morada da Barra, Vila Velha, quando bandidos dispararam em direção ao carro. Para Thaís, o encontro foi fatal. O motivo pode ter sido o veículo estar naquele momento com a luz interna apagada, o que contraria a ordem de bandidos, exposta nos muros do bairro sem pudor algum. O desabafo da tia da jovem traz a triste constatação de que estamos sujeitos a um poder paralelo. “Parecia que a gente era bandido e eles eram a polícia e estavam fazendo justiça.”
Em 15 de julho, por pouco não houve outra tragédia. Um casal teve o veículo alvejado diversas vezes quando passava pela mesma região, com duas crianças no veículo. Alguns poderiam tentar argumentar que eles estavam “no lugar errado, na hora errada”. Esquecem-se, talvez, de que não deveria haver “lugar errado” nem “hora errada”.
Nos vazios historicamente deixados pelo poder público – seja pela carência nas áreas de educação e assistência social, seja pela ausência de policiamento –, o tráfico instaura seu próprio sistema de regras e punições. Espancamentos, expulsões dos bairros e até a pena de morte são algumas das sanções previstas nesse código alternativo. O tribunal do tráfico também impõe o toque de recolher, que fecha comércios, impede escolas de funcionar e cerceia o direito de ir e vir de moradores, que têm até suas redes sociais vasculhadas, como já denunciamos neste jornal.
Estamos em época de eleições gerais. É hora de os candidatos apresentarem propostas claras e eficazes para a segurança pública, que não se restrinjam à repressão, mas enxerguem o problema em seu aspecto multicausal, como ressaltaram os especialistas em segurança pública ouvidos na seção “O X da Questão”, publicada no domingo. O poder paralelo dos bandidos é um poder de fato, mas não de direito. A cidade não é dos bandidos.