Uma das maiores festas populares do mundo, o carnaval de rua do Brasil é um monumento cultural inconteste. Seria esperado que o presidente da República mostrasse respeito à tradição popular e ao lucrativo negócio que ela representa. Mas Jair Bolsonaro ignorou a grandiosidade das manifestações e preferiu dialogar apenas com a ala mais radical de seu eleitorado.
Em um tuíte incondizente com o posto que ocupa, o mandatário disseminou cenas escatológicas em um bloco como se fosse aquele o resumo do carnaval. Tentou reduzir a folia de Norte a Sul do país, espelho da criatividade e da alegria de seu povo, a um antro de degradação moral. Tudo sob a desculpa de “expor a verdade”.
O brasileiro sabe que a festa não tem a reputação ilibada. O país do carnaval, com todas as suas contradições, já foi cantado em verso e prosa. Atos de violência ou posturas impróprias, até bem mais graves que as mostradas no vídeo compartilhado por Bolsonaro, historicamente acompanham a festa, porque o Brasil é um país violento nos 365 dias do ano. Desvios – legais ou morais – não explodem nas ruas junto com os confetes e serpentinas e desaparecem na Quarta-Feira de Cinzas. Felizmente, são desvios e não a regra.
Na mensagem que escoltou o vídeo no Twitter, o presidente disse que não se sentia “confortável em mostrar” as imagens. Deveria ter dado mais peso a esse exame de consciência, portanto, e evitado polêmica desnecessária. Afinal, qual o propósito de tornar aquele registro pontual no sinônimo de carnaval? A que serve?
Enquanto se preocupa com excessos de foliões no carnaval, Bolsonaro se cala sobre o o que realmente importa. O principal projeto de seu governo, a reforma da Previdência, foi tema de apenas seis dos mais de 300 tuítes do presidente desde que assumiu o cargo, segundo levantamento do Poder360. Ironicamente, no tal tuíte polêmico, Bolsonaro sugeriu aos cidadãos que elenquem suas prioridades. Poderia seguir seu próprio conselho. Em vez disso, mais uma vez desperdiça capital político criando, ele mesmo, nova crise, sem qualquer ajuda da oposição.