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VITOR VOGAS

Ecos do atraso 2

Neste ano de 2018 no calendário cristão, tem gente, orgulhosamente, preferindo viver na Idade Média

Publicado em 03 de Maio de 2018 às 06:58

Públicado em 

03 mai 2018 às 06:58
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Ecos do atraso 2 Crédito: Ilustração - Amarildo
No romance “O nome da rosa”, de Umberto Eco, no ano de 1327, um mosteiro no norte da Itália é palco de misteriosos assassinatos. O motivo e a autoria dos crimes são desvendados pelo frade franciscano Guilherme de Baskerville, representação do intelectual humanista e racional em contraposição à mentalidade teocêntrica do homem medieval. Guilherme (alerta de spoiler) descobre que o serial killer era aquele de quem menos se suspeitava: Jorge, um ancião cego. Precisamente, o mais ardoroso defensor da ideia de que o conhecimento não deveria se espalhar, pois isso colocaria em risco o poder temporal e espiritual da Igreja sobre os homens. Estes, para ele, deveriam permanecer nas trevas da ignorância.
 
Um livro em particular é a chave da trama e a causa de todas as mortes: a “Comédia” de Aristóteles, obra que completaria a clássica “Poética” do grande filósofo grego e que, na trama, julgava-se perdida para sempre. Mas havia um exemplar no mosteiro. Para Jorge, porém, era um livro vedado aos homens, pela ameaça que representava: em sua visão (ou cegueira), os homens não poderiam rir. Não havia nada que ele abominasse mais do que o riso, por ser o que torna os homens mais humanos, afastando-os da espiritualidade. Para Jorge, se o mundo tivesse conhecimento de que um pensador respeitado pela Igreja na verdade endossava o riso, então todos os dogmas católicos viriam abaixo e esse seria o princípio da ruína da instituição. Por isso, o monge envenena as páginas, engole-as e morre com o livro, em um incêndio que, simbolicamente, destrói a biblioteca.
O enredo de “O nome da rosa” pode ser interpretado como duelo entre um mundo em declínio e outro que começava a tomar forma na História; representa o conflito entre um velho ainda não completamente superado e que teimava em manter-se de pé e um novo ainda não completamente gerado. Estamos no início do fim da Idade Média e da transição para o Renascimento. Depois disso, no curso da História, viriam a invenção da imprensa, a Modernidade, o Iluminismo, os progressos da Ciência. E viria, acima de tudo, o advento da Razão, a vitória do mundo racional sobre um mundo “encantado”, forjado em cima da tradição popular, de crendices e superstições.
Sem prejuízo da espiritualidade, que é uma dimensão do ser humano (fé e razão podem conviver sem que uma necessariamente represente a anulação da outra), a humanidade fez a opção pelo saber, pelo desejo de saber, de adquirir conhecimento, a fim de evoluir como civilização. Da mesmo forma, fez a opção pela liberdade de expressão do pensamento, inclusive por meio das formas de expressão artística – até porque a arte também produz e veicula conhecimento.
Enfim, essa foi a opção que o homem fez historicamente. Ou, pelo menos, julgava-se que houvesse feito. Pois qual não é nossa surpresa com a recente escalada, no Brasil, de um movimento essencialmente retrógrado, que ganha força em setores da sociedade e eco em casas parlamentares, flertando com o atraso, beirando as raias do absurdo e professando um pensamento medieval como o dos monges de “O nome da rosa”, em 1327?
Neste ano de 2018 no calendário cristão, tem gente, orgulhosamente, preferindo viver na Idade Média. Só isso explica a grita para que escolas “só ensinem Português e Matemática”. Só isso explica um projeto como o que chegou a ser aprovado na Assembleia no ano passado, para censurar exposições artísticas com “teor pornográfico” no ES, posteriormente vetado pelo governador. E o fato de os 17 vereadores de uma cidade como Vila Velha terem aprovado por unanimidade um projeto bizarro de teor similar, acintosamente inconstitucional, e, não satisfeitos, ainda terem derrubado o veto do prefeito, também por unanimidade.
O atraso, meus caros, voltou à moda com tudo. É a vanguarda das trevas. Acuda-nos, Guilherme de Baskerville!
Paulo Roberto a postos
O chefe de gabinete do governador Paulo Hartung (PMDB), Paulo Roberto Ferreira, não se desincompatibilizou. Porém, como não ordena despesas, pode disputar as eleições, opção que ele não exclui. “Não sou pré-candidato. Mas não posso descartar completamente. O contexto mais à frente pode ser diferente do de hoje. Lá na frente, no período das convenções, o governador pode entender que precisa contar comigo para alguma missão.”
Dornellas não vingou
A petista Lúcia Dornellas continua no cargo de subsecretária estadual de Promoção de Direitos Humanos. Ela chegou a ser cotada para substituir Júlio Pompeu (PDT), segundo o próprio, na chefia da secretaria, mas o governador optou pela professora Gilsilene Passon.
O que Deus uniu...
Ex-presidente do PSDB de Vitória e pré-candidato a deputado federal, Wesley Goggi é comissionado em uma gerência na Secretaria de Estado de Saúde. No dia 13 de abril, sua esposa, Hellida Goggi, foi nomeada para o cargo de assessora especial do vice-governador César Colnago (presidente estadual do PSDB), ganhando R$ 8,8 mil brutos por mês.
...o governo não separa
 
Outra esposa é contemplada com cargo comissionado no governo estadual: Nicole Boldrine Figueiredo foi nomeada como assessora especial da Secretaria de Direitos Humanos, com salário bruto de R$ 5,7 mil. Ela é casada com Evandro Figueiredo, que ocupava cargo equivalente na Secretaria de Estado de Esportes e foi exonerado do governo em março. Ele é investigado pela Polícia Federal, na Operação Voto Livre, por produção e divulgação de fake news em favor do governador Paulo Hartung.
 

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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