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Plano do governo Bolsonaro

Senadores capixabas criticam projeto de Guedes para mudar Orçamento

Parlamentares veem medida como meio de ganhar apoio para reforma da Previdência

Publicado em 12 de Março de 2019 às 13:31

Mikaella Campos

Publicado em 

12 mar 2019 às 13:31
Ministro Paulo Guedes defende em proposta fim de despesas obrigatórias Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil
A ideia do ministro da Economia, Paulo Guedes, de deixar na mão dos parlamentares 100% do controle do Orçamento é criticada por senadores do Estado. Para eles, a mudança levanta a preocupação sobre aumento das distorções provocadas pelo jogo político, com determinados setores sendo privilegiados com recursos enquanto outros poderão ficar no escanteio. A avaliação vai além. Eles enxergam a proposta como uma forma equivocada de atrair apoio para aprovar a reforma da Previdência.
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que será enviada até abril ao Senado, acaba com as despesas obrigatórias e desvincula gastos definidos na Constituição, deixando para o Legislativo o poder de definir qual a verba vai para cada área. É uma das apostas da equipe econômica para equilibrar as contas públicas da União e atender a anseio de Estados e municípios com as finanças em colapso.
“A medida parece econômica, mas é apenas um discurso de forte teor político. Há responsabilidades que são intransferíveis. Guedes tenta ganhar forças para a reforma da Previdência ao dizer que os parlamentares terão livre arbítrio. Mas isso não é verdadeiro. Não vai gerar base de apoio. Vai apenas desorganizar, bagunçar o cenário. Vamos aprovar a reforma da Previdência sem assumir as funções do Executivo”, opina a senadora capixaba Rose de Freitas (Podemos).
A parlamentar se diz assustada com as atitudes do governo federal. “A equipe econômica tem um projeto para economizar R$ 1,1 trilhão com a Previdência, uma proposta para solucionar todos os problemas que nos trouxeram até aqui e que criaram esse déficit público gigantesco. Mas ele percebeu que não tem base política para passar o projeto”, afirma, ao dizer que o governo Bolsonaro se contradiz. “Em sua campanha eleitoral garantiu recursos para educação, saúde, segurança e infraestrutura. Com a PEC, ele não poderá manter essa promessa.”
Não tem como o governo abrir mão do controle do Orçamento. A proposta de Paulo Guedes parece ser econômica, mas é apenas um discurso de forte teor político
Rose de Freitas, senadora
A PEC que desindexa as despesas do Orçamento também é alvo de resistência do senador capixaba Fabiano Contarato (Rede). “Não sou a favor da desvinculação de receitas. A maioria dos Estados e municípios brasileiros não está cumprindo metas quanto ao atendimento da população na saúde e na educação. Invariavelmente, os mais pobres são os que mais sofrem”, ressalta.
De acordo com ele, a educação pode ser uma das áreas mais afetadas. “Um terço das crianças de zero a três anos das famílias estavam fora de creches por falta de vagas. Na outra ponta, os dados revelam que o Brasil amarga 27% dos jovens entre 15 e 17 anos fora das escolas. O analfabetismo, que em 2015 estava em 6,5%, deveria recuar, mas ficou em 7% em 2017”.
Ele ainda faz uma reflexão sobre a situação da saúde. “Se desvincularmos receitas, estaremos na contramão do atendimento a quem mais precisa. É um instrumento (vinculação), ainda, muito necessário.”
Estaremos (com a PEC) na contramão do atendimento a quem mais precisa. É um instrumento (vinculação), ainda, muito necessário
Fabiano Contarato, senador
Para comentar o tema, o governo do Espírito Santo foi procurado, mas em nota disse que somente após ser divulgado o texto final da PEC a Secretaria da Fazenda poderá fazer qualquer avaliação. O senador Marcos do Val disse que precisa analisar o tema antes de se manifestar.
Tramitação
Líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE) diz que há pressão de governadores e prefeitos com contas em frangalhos para aprovar logo a medida. Ainda não está claro se o projeto partirá de um senador, já que a legislação estabelece que uma PEC enviada do Executivo deve primeiro passar pela Câmara.
Segundo Bezerra, o ambiente para aprovação do projeto está em construção. Há previsão de Guedes visitar senadores para convencê-los da ideia, mostrando ser importante tirar as amarras que obrigam a administração pública a aplicar recursos em áreas em detrimento de outras. (Com agências)
Proposta interessante, mas na hora errada
Os defensores da flexibilização do orçamento explicam que é preciso dar mais margem de manobra para um mecanismo hoje engessado por gastos obrigatórios - como benefícios previdenciários, salários de servidores - e por limites mínimos de recursos que precisam ir para saúde e educação.
Congresso Nacional: proposta terá de ser votada Crédito: Pedro França/Agência Senado
No entanto, analistas acreditam que a PEC do pacto federativo precisa ser bem construída para não agravar o quadro fiscal dos entes ou deixar setores importantes descobertos.
Na visão da professora de Economia do Insper, Juliana Inhasz, a medida é, na verdade, apenas um trunfo do governo para comprar apoio de deputados e senadores para a aprovação das novas regras de aposentadoria.
“Minha percepção é de que o governo quer usar seu poder de barganha. O projeto é mais uma moeda de troca, apesar de ser algo interessante por deixar o orçamento mais perto da situação econômica. Mas ainda assim é algo perigoso por deixar os parlamentares escolherem que serão atendidos com os recursos. O julgamento para direcionar o dinheiro pode ser político e não técnico.”
Para o especialista em contas públicas, Fabio Klein, da Tendências Consultorias, a decisão de enviar a PEC ao Congresso é precipitada por dobrar as necessidades de articulação, algo que pode atrapalhar o andamento da reforma da Previdência.
“A ideia de desconstitucionalizar o orçamento seria importante para reduzir a rigidez na aplicação dos recursos, dando mais liberdade ao poder público. Mas o modelo atual tem um lado bom que é garantir o mínimo de recursos para algumas áreas. O problema é que vamos discutir uma revolução complexa como num momento delicado. O governo não deveria dividir esforços. Era melhor se concentrar na Previdência e depois propor outras alterações”, avalia o especialista em contas públicas, Fabio Klein, da Tendências Consultoria.

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