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Mercado de trabalho: empresas recontratam os demitidos na crise

Retomada de setores como a construção civil tem reaberto vagas

Paulo César Quiuqui. Crédito: Marcelo Prest - GZ
Paulo César Quiuqui. Crédito: Marcelo Prest - GZ

Depois de 15 anos de trabalho em uma construtora, o carpinteiro Paulo César Quiuqui, 55 anos, foi desligado. Apesar de desconfiar que haveria cortes na empresa, a surpresa foi grande, e o levou a trabalhar fazendo bicos por cerca de dois anos. No final do ano passado, porém, ele foi readmitido pela mesma empresa.

“Fui demitido em 2015 e chamado para voltar em setembro do ano passado. Durante esse tempo, trabalhei como autônomo e prestava serviços para várias empresas como microempreendedor individual, inclusive para a construtora que voltei a trabalhar agora. O momento é de felicidade, principalmente porque estou construindo o sonho de alguém que vai morar no prédio onde estou trabalhando”, conta.

Assim como Paulo César, centenas de trabalhadores que haviam sido demitidos durante a crise estão sendo recontratados nesse momento de recuperação da economia. O setor de construção civil, um dos que mais sofreram com a crise, está sendo o protagonista desse movimento.

“O nosso setor é o primeiro que sofre com a crise e o último que se recupera. Nos últimos quatro anos, as empresas de construção civil no Estado reduziram o quadro de funcionários em mais de 20 mil pessoas porque não havia lançamentos”, explica José Élcio Lorenzon, vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon).

Segundo Lorezon, com os melhores números da economia, sobretudo a queda da taxa de juros, o setor está se reaquecendo, uma vez que mais pessoas estão optando pelo investimento em imóveis. “Do final do ano passado para cá, as empresas retomaram os lançamentos de obras. Se antes da crise cada empresa tinha, em média, oito obras, durante a crise caiu para cerca de duas, e agora já chega a cinco empreendimentos”.

A própria empresa de Lorezon, a construtora Lorenge, é uma das que está chamando de volta ex-funcionários nesse pós-crise. “Já recrutamos cerca de 90 colaboradores de volta, em nossas 13 obras. E a tendência é que esse número cresça”, comenta.

Outras construtoras, como o grupo Mata da Praia-Dacaza e a Sá Cavalcante, também já prometem readmissões de funcionários ao longo do ano, a medida que novos empreendimentos forem lançados.

Gustavo Figueiredo, diretor da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário do Estado (Ademi), explica que esse é um movimento natural do setor. “Várias empresas tiveram que fazer uma redução do quadro por falta de demanda ou pela necessidade, e não por ineficiência. Então, é natural que essas empresas busquem de voltas suas equipes que foram desmontadas e profissionais que já conhecem a cultura da empresa”.

INDÚSTRIA

Outro setor em que se nota essa reação é o da indústria. Com o início da recuperação da capacidade ociosa de produção, essas empresas estão tendo que reforçar seus quadros, chamando em muitos casos ex-contratados. Esse é o caso da Cedisa, que do final do ano passado para cá já readmitiu cinco funcionários.

“Tivemos que desligar na época pelo momento de crise, mas, para alguns profissionais de destaque, já havíamos dito que iríamos chamá-los de volta quando houvesse essa recuperação. Já recontratamos pessoas na área profissional e de suporte, e a perspectiva é que esse movimento siga ao longo do ano”, diz a gerente da RH da empresa, Andréa Bolzan.

Já são vistas também recontratações nas áreas de saúde e educação privada, conforme explica a consultora de carreira e seleção Gisélia Curry. “Já fiz seleção para uma faculdade particular e para uma empresa de diagnóstico por imagem que readmitiram funcionários, muitos por substituição, mas em busca de profissionais mais qualificados”, conta.

SETORES QUE ESTÃO RECONTRATANDO

Construção Civil

A crise fez o setor parar de fazer lançamentos residenciais. Empresas que antes de 2014 tinham, em média, sete canteiros de obras, até o meio do ano passado tinham cerca de dois e, agora, já recuperam, com cerca de cinco.

A previsão é que a geração de empregos no setor aqueça novamente neste ano, com oportunidades para todos os cargos, desde engenheiros até pedreiros, carpinteiros e técnicos operacionais. Funcionários com experiência têm preferência.

Indústria

A capacidade de produção da indústria, que caiu com a crise, está começando a ser recuperada no Estado. Ou seja, a produção tem crescido e, com isso, as empresas precisam retomar as contratações.

Entre as funções desejadas estão desde profissionais da área administrativa, técnicos e área operacional. Há a possibilidade de readmissões de funcionários que precisaram ser desligados em função da crise.

Educação

Colégios e faculdades que tiveram que enxugar o quadro estão voltando a contratar, sobretudo profissionais mais qualificados que haviam sido demitidos antes, como professores com mestrado e doutorado.

Saúde

Empresas privadas da área da saúde, que sofreram com a perda de clientes, estão começando a sentir a melhora da procura e tem buscado reforçar o quadro ou fazer substituições, especialmente de profissionais especializados.

EXPERIÊNCIA E CAPACITAÇÃO PESAM NA ESCOLHA DOS EMPREGADORES

Em um processo de recrutamento de profissionais, um ex-funcionário larga na frente com boas vantagens. Entre os motivos pela preferência, estão a experiência, o conhecimento da cultura da empresa e a dispensa de novos treinamentos ou cursos de capacitações iniciais. Com isso, a contratação e a entrada do profissional é mais rápida e pode representar até uma economia.

De acordo com especialistas, esses são alguns dos motivos que têm levado empresas a readmitirem antigos contratados nesse pós-crise.

A diretora-executiva de relacionamento da Associação Brasileira de Recursos Humanos no Espírito Santo (ABRH-ES), Tatiana Pelissari, explica que esse movimento se dá principalmente com profissionais especializados em alguma área, ou seja, que têm um diferencial.

“Eles chamam de volta quem é um trabalhador de destaque, especializado em alguma área e que só demitiram porque era necessário aquela redução. Mas, na retomada, essas são as primeiras opções, até pela rapidez da contratação, já que aquela fase inicial de adaptação e integração é dispensada”, afirma.

FUNÇÕES

As vagas para as quais essas readmissões mais têm aparecido são as de pedreiro, carpinteiro, técnicos de obras, engenheiros e de administração para o setor da construção civil.

Na indústria, as principais funções também são as operacionais e de suporte. Já nos setores de educação, saúde e tecnologia, com profissionais mais especializados, com mais nível de qualificação, são os mais visados.

“É uma vantagem nesses casos porque esse profissional já conhece os mecanismos da empresa, o relacionamento com os superiores, além de dispensar as capacitações. Tem um pouco de desvantagem de ter que dispensar e pagar a rescisão, para depois contratar de novo, mas ainda assim vale a pena em muitos casos”, pondera o advogado trabalhista Adriesley Esteves de Assis.

Essa onda de readmissões, inclusive, já era esperada, segundo o especialista em carreira e seleção, Elias Gomes, da Acroy Consultoria.

“Quando as empresas dispensaram tantas pessoas qualificadas e treinadas naquele pior momento de crise, já se imaginava que um dos primeiros movimentos de quando houvesse essa retomada seria chamar de volta esse pessoal, que se não fosse o mau momento não haviam sido dispensados”, destaca.

NOVA LEI TRABALHISTA LIMITA READMISSÕES

 . Crédito: Arquivo
. Crédito: Arquivo

Uma mesma empresa recontratar um funcionário que havia sido demitido é permitido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), segundo especialistas. No entanto, há limitações para alguns casos específicos.

A diretora-executiva de relacionamento da Associação Brasileira de Recursos Humanos, Tatiana Pelissari, explica que se o funcionário foi demitido por justa causa, a empresa precisa esperar um prazo mínimo de 90 dias para readmití-lo. Mas, se o empregado não foi demitido por justa causa ou pediu para sair, não há um prazo de carência estipulado.

“É uma prática legal e comum, mas que requer cuidados a esses pontos. Se o funcionário é readmitido com a mesma função e carga horária, por exemplo, ele obrigatoriamente tem que ter pelo menos o mesmo salário que recebia antes”, comenta.

Outro ponto de atenção é a nova legislação trabalhista, em vigor desde novembro do ano passado. Segundo o advogado Adriesley Esteves de Assis, do escritório Alcure, Pereira & Puppim, a nova lei estabelece uma limitação quando há dispensa e recontratação pelo regime intermitente, que paga por hora trabalhada.

“Hoje, o empresário não pode demitir o empregado e contratar como intermitente, para evitar uma onda de demissões com contratações em um regime menos vantajoso para o empregado. Para fazer isso, é preciso prazo de 180 dias”, explica.

 

 

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