A paralisação dos caminhoneiros parou o Brasil por 10 dias, trazendo prejuízos a setores produtivos, em especial a agropecuária e o varejo, e levando o país à beira do caos. Nesse período atípico, o Brasil debateu questões econômicas como a formação dos preços dos combustíveis, e políticas, como o pedido por intervenção militar feita por muitos caminhoneiros.
A greve começou como um movimento que refletiu o descontentamento real de caminhoneiros autônomos, que viram seu negócio se tornar inviável diante de aumentos seguidos no valor do diesel sem o preço do frete acompanhar esse cenário. Embora a pauta atenda aos autônomos, ela se encaixou nos anseios dos empresários de transporte de cargas, preocupados em reduzir custos, já que o país apenas começou a caminhada rumo ao fim da recessão.
A suspeita de locaute foi, então, levantada. Enquanto isso, o governo já não conseguia dar respostas satisfatórias ao movimento, inflado nas redes sociais, de forma horizontal. A greve mostrou que o governo cometeu um erro de cálculo: foi alertado, mas não acreditou na potência do movimento.
A solução encontrada para o imbróglio e anunciada pelo presidente Michel Temer foi uma velha fórmula: subsidiar o preço do diesel e segurar os preços. A insatisfação com a política liberal implantada pelo ex-presidente da Petrobras, Pedro Parente, em que o preço dos combustíveis varia diariamente de acordo com as flutuações do mercado internacional, ficou evidente para quem depende de diesel para tirar seu ganha-pão diário.
Diante das benesses concedidas, alguém vai pagar a conta. Mas o brasileiro mostrou que não tolera aumento de impostos. Pesquisa Datafolha, divulgada na última semana, revelou que os brasileiros também não aceitam cortes que possam atingir áreas sociais. É possível não mexer nos impostos nem cortar em áreas sensíveis, mas é preciso, por exemplo, uma reforma constitucional, diz o economista Eduardo Araújo.
O que a população quer é que o governo corte na própria pele. Cortar alguns benefícios e direitos da folha de pessoal do setor público poderia reduzir a despesa. Outra coisa que poderia ser feita é remover incentivos fiscais concedidos, e que não têm resultados econômicos comprovados. Há uma percepção da população em relação ao custo da corrupção. Ele existe, mas, do ponto de vista das finanças públicas, é proporcionalmente pequeno, observa o economista.
POLÍTICA
Do ponto de vista político, a greve dos caminhoneiros mostrou novas formas de organização social via redes digitais, em tempos de falência dos partidos políticos, fortemente atingidos pela chaga da corrupção. Outro fenômeno que surgiu no bojo do movimento paredista foi o pedido por intervenção militar, que se mostrou mais vivo que nunca entre alguns grupos mais conservadores e radicais.
Esse processo todo faz parte de uma insatisfação evidente que as pessoas têm com a política. É uma mobilização muito grande, porém despolitizada e desinformada, onde boatos se espalham. Eles têm a percepção que temos que fazer alguma coisa e temos que demonstrar a nossa insatisfação, explica o jornalista especialista em mídias sociais Pedro Doria.
Já em relação à infraestrutura do país, a greve também revelou um Brasil refém do transporte de carga rodoviário, fruto de políticas que no passado (e no presente) privilegiaram o automóvel em detrimento das ferrovias e hidrovias.
As consequências desse modelo são o custo alto do transporte, o alto índice de acidentes e as rodovias sucateadas, analisa o professor de engenharia de tráfego da UVV, Fabio Romero.
O QUE A GREVE MOSTROU SOBRE O PAÍS
O brasileiro não aceita aumento de impostos e não quer cortes nos serviços
Uma pesquisa Datafolha divulgada na última semana mostrou que 87% dos brasileiros não apoiam aumento de impostos ou cortes no orçamento para cobrir o rombo causado pelo subsídio que vai bancar a redução do preço do diesel. A pesquisa mostra que é preciso encontrar novas soluções para essa despesa inesperada, já que o Brasil tem uma das maiores cargas tributárias do mundo.
A dependência total do país ao modal rodoviário
A paralisação de apenas uma categoria, a de caminhoneiros, levou o país inteiro à beira do caos. Alimentos, remédios, insumos industriais, ração para animais e até combustíveis não chegaram a nenhum lugar, provocando um desabastecimento geral. Isso mostrou que praticamente toda a carga que roda no país é entregue através de rodovias, pelo transporte feito por caminhoneiros.
Novas formas de organização social em tempos de falência da política
Se há uma década a mobilização social para protestos era feita via sindicatos e entidades políticas, as redes sociais possibilitaram novas formas de organização da sociedade. Em tempos de descrédito dos partidos políticos e da política, abalados por escândalos de corrupção, plataformas como WhatsApp se tornaram veículos de debate e articulação dos movimentos sociais.
Muita gente correu para estocar produtos
Consumidores comprando uma quantidade exagerada de alimentos, pessoas levando galões a postos de combustível para estocar gasolina... muitos brasileiros demonstraram pânico diante da chance de viver uma escassez de produtos e correu para estocar itens de primeira necessidade - mesmo que isso significasse ficar em filas quilométricas, levando horas para comprar o maior número de produtos possível.
O desejo por intervenção militar segue vivo para alguns grupos
Em diversos pontos do país, foi possível ver caminhões que traziam faixas pedindo intervenção militar no país e queda do presidente Michel Temer. Muitos caminhoneiros bradaram que só deixariam o protesto após as Forças Armadas assumirem o poder. Outros pediram intervenção militar constitucional, algo que não existe, já que não há previsão de intervenção militar na Constituição.
Política liberal da Petrobras causou revolta
As tensões geopolíticas entre Estados Unidos e Irã e a crise da Venezuela provocaram uma disparada nos preços do barril do petróleo. Além disso, a perspectiva de alta de juros nos EUA levou o dólar para cima. Os dois são os principais fatores de variação do valor dos combustíveis no Brasil. A política de preços implantada pela Petrobras em julho do ano passado, com a gestão de Pedro Parente, acompanha flutuações do mercado internacional.