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Denúncias

Empresas tentam repassar custos de demissão a Estados

As empresas estão alegando o chamado 'fato do príncipe' - quando o negócio é obrigado a fechar por um ato da autoridade municipal, estadual ou federal

Publicado em 22 de Maio de 2020 às 08:11

Redação de A Gazeta

Publicado em 

22 mai 2020 às 08:11
Carteira de Trabalho
Carteira de Trabalho Crédito: Fernando Madeira
Encorajadas por uma fala do presidente Jair Bolsonaro, empresas estão recorrendo a um artigo da lei trabalhista para fazer demissões em massa sem o devido pagamento de verbas rescisórias. O Ministério Público do Trabalho já recebeu denúncias de casos, instaurou inquéritos civis e não descarta ações civis coletivas contra as companhias que adotaram a prática.
As empresas estão alegando o chamado "fato do príncipe" - quando o negócio é obrigado a fechar por um ato da autoridade municipal, estadual ou federal - para repassar o pagamento a governadores e prefeitos, adversários de Bolsonaro no "cabo de guerra" em torno das políticas de isolamento social. O presidente defende um relaxamento da quarentena, mas o STF garantiu a Estados e municípios autonomia para determinar regras de funcionamento das atividades econômicas.
Como consequência, centenas de trabalhadores demitidos estão ficando sem a renda mensal e sem a reserva financeira que teriam com o pagamento total da rescisão. No lugar disso, recebem a informação de que as indenizações ficarão a cargo do governo estadual. O uso do artigo da CLT pelas empresas foi antecipado pelo jornal Valor Econômico.
Em 27 de março, Bolsonaro declarou que Estados e municípios podem ser responsabilizados por encargos trabalhistas de estabelecimentos que demitirem após serem obrigados a fechar. "Tem um artigo na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) que diz que todo empresário, comerciante, etc. que for obrigado a fechar o seu estabelecimento por decisão do respectivo chefe do Executivo, os encargos trabalhistas quem paga é o governador e o prefeito", disse o presidente na ocasião.
O jornal O Estado de S. Paulo mostrou na quinta-feira (21), que a crise do coronavírus já responde por 20% das novas ações trabalhistas. Nos últimos 30 dias, cerca de 10 mil trabalhadores procuraram a Justiça, alegando que foram demitidos em função da pandemia e não receberam o conjunto ou parte das verbas rescisórias.
A visão entre técnicos do próprio governo, no entanto, é de que a situação atual não é um típico "fato do príncipe". Já o secretário de Relações Institucionais da Procuradoria-Geral do Trabalho, Márcio Amazonas, afirma que a tese usada pelas empresas é "perigosa" e cria insegurança jurídica. Para ele, a situação é preocupante e há espaço para ação do MPT.
"Numa época de pandemia, em que se espera que seja cumprida a função social da empresa, em vez de dividir essa conta (da crise) com os trabalhadores a empresa está passando para o Estado e deixando os trabalhadores à míngua. Isso é um ato antiético."

DENÚNCIAS

No Rio, a Procuradoria Regional de Trabalho recebeu uma denúncia de que 690 funcionários da churrascaria Fogo de Chão foram demitidos em todo o País sob a alegação do "fato do príncipe". Um inquérito civil já foi instaurado para apurar indícios de lesão coletiva a direitos sociais garantidos pela Constituição aos trabalhadores.
Uma carta enviada ao governo estadual do Rio diz que a Fogo de Chão (que desde 2018 pertence ao fundo de investimentos americano Rhône Capital) depositaria na conta dos empregados o saldo de férias, o adicional de um terço e o 13º proporcional em até dez dias. Não houve comprovação dos pagamentos. Além disso, alguns empregados receberam parte das verbas rescisórias, que incluem o aviso prévio e a multa de 40% sobre o FGTS, enquanto outros não receberam nenhuma parcela.
Em Salvador, a juíza da 3ª Vara do Trabalho, Isabella Borges de Araújo, determinou em 30 de abril que uma empresa de transportes reintegre dez funcionários demitidos durante a pandemia do novo coronavírus. As dispensas também haviam ocorrido sob a justificativa do existência do "fato do príncipe".
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