Publicado em 29 de novembro de 2024 às 19:18
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O dólar fechou em R$ 6 pela primeira vez nesta sexta-feira (29), renovando o recorde histórico de valor nominal pelo terceiro dia consecutivo.>
A sessão desta sexta foi de alta volatilidade. A moeda chegou a atingir a cotação de R$ 6,115 na máxima do dia, até virar para queda no início da tarde em reação aos acenos de responsabilidade fiscal dos líderes do Congresso.>
Os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e Arthur Lira (PP-AL), respectivamente, disseram que a proposta da isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5.000 -anunciada pelo ministro Fernando Haddad (Fazenda) na quarta- não deve avançar em um futuro próximo pelo Congresso Nacional.>
As falas apaziguaram parte dos ânimos do mercado, e o dólar atingiu a mínima de R$ 5,955 perto das 13h. O alívio, porém, não se sustentou por muito tempo, e a moeda logo voltou a subir. Encerrou em alta de 0,19%, cotada a R$ 6,001.>
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Ao longo de novembro, a divisa avançou 3,62%, e, na semana, 3,25%. No acumulado do ano, a valorização é de 23,46%, segundo a plataforma CMA.>
Ainda que o valor seja recorde na base nominal -a que desconsidera a inflação do cálculo-, a maior cotação real foi atingida em setembro de 2002, na esteira da primeira eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Corrigido pela inflação, o valor do dólar naquela ocasião seria hoje o correspondente a R$ 8,75.>
O cálculo, feito pela consultoria Elos Ayta, considera a cotação da Ptax -a taxa de câmbio calculada pelo BC (Banco Central)- e ajustes pela inflação brasileira (IPCA) e norte-americana (CPI) até novembro de 2024.>
A disparada, em curso desde quarta-feira, é em reação às medidas de ajuste fiscal do governo Lula.>
Apresentado na quinta, o pacote -que prevê uma economia de R$ 71,9 bilhões em 2025 e 2026- decepcionou o mercado financeiro por excluir medidas de maior impacto fiscal e incluir a elevação para até R$ 5.000 na faixa de isenção de Imposto de Renda, tendo como fonte a taxação de quem ganha acima de R$ 50 mil mensais.>
O dólar, que rondava a casa dos R$ 5,80 até terça-feira, logo rompeu as barreiras de R$ 5,90 e R$ 6 em reação ao anúncio duplo. Para conter os ânimos, Lira e Pacheco reforçaram apoio do Congresso às medidas de corte de gastos e austeridade fiscal, mas criticaram possíveis mudanças na arrecadação com impostos.>
"Não é pauta para agora e só poderá acontecer" se houver condições fiscais para isso, ou seja, se houver garantia de receitas que compensem a perda de arrecadação, afirmou Pacheco sobre a mudança no IR.>
"A questão de isenção de IR, embora seja um desejo de todos, não é pauta para agora e só poderá acontecer se (e somente se) tivermos condições fiscais para isso. Se não tivermos, não vai acontecer. Mas essa é uma discussão para a frente, que vai depender muito da capacidade do Brasil de crescer e gerar riqueza, sem aumento de impostos", continuou o presidente do Senado.>
Lira adotou o mesmo tom no X, ex-Twitter.>
"Reafirmo o compromisso inabalável da Câmara dos Deputados com o arcabouço fiscal. Toda medida de corte de gastos que se faça necessária para o ajuste das contas públicas contará com todo esforço, celeridade e boa vontade da Casa, que está disposta a contribuir e aprimorar", disse.>
"Qualquer outra iniciativa governamental que implique em renúncia de receitas será enfrentada apenas no ano que vem, e após análise cuidadosa e sobretudo realista de suas fontes de financiamento e efetivo impacto nas contas públicas. Uma coisa de cada vez. Responsabilidade fiscal é inegociável.">
O aceno à responsabilidade com as contas públicas fez efeito no mercado. A moeda virou para queda logo após as declarações, mas não conseguiu se sustentar no campo negativo por muito tempo. As incertezas dos operadores ainda dominam o câmbio.>
Na Bolsa, a reação foi mais duradoura. O Ibovespa fechou em alta de 0,84%, aos 125.667 pontos, também apoiado pela Vale e pela Petrobras, as duas empresas de maior peso no índice.>
"O Congresso dizer que vai barrar qualquer coisa que não esteja de acordo com o objetivado com o pacote fiscal coloca um pouco de gelo nas coisas", afirma Matheus Matheus Massote, especialista em câmbio da One Investimentos.>
Haddad também falou nesta sexta, em tentativa de colocar panos quentes na disparada da moeda norte-americana.>
Em almoço promovido pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos), afirmou que o pacote "não é o 'gran finale' de tudo que precisa fazer". Segundo ele, daqui a três meses pode estar discutindo o pacote de corte se for necessário. "Se tiver algum problema, vamos voltar para a planilha, para o Congresso, para o presidente Lula.">
Para os investidores, o problema foi comunicar as duas medidas ao mesmo tempo -especialmente em um momento de grande expectativa pelo pacote, aguardado por quatro semanas.>
"Os investidores provavelmente receberiam de braços abertos esse valor significativo de R$ 70 bilhões, mas a surpreendente medida de isentar os salários até R$ 5.000 conteve o otimismo", avalia Eduardo Moutinho, analista de mercados do Ebury Bank.>
A Fazenda estima que o aumento da faixa de isenção terá um impacto de cerca de R$ 35 bilhões na arrecadação federal. Isso será compensado, ainda segundo o ministro, por uma alíquota mínima de 10% no IR para quem ganha mais de R$ 50 mil por mês, o equivalente a R$ 600 mil por ano -proposta conhecida como "taxação dos super-ricos".>
Além disso, o governo terminará com a isenção para aposentados que tenham problemas de saúde graves e recebam acima de R$ 20 mil ao mês, "entre outros ajustes".>
De acordo com Haddad, a reforma sobre o IR não fará efeito no fiscal e tem como objetivo assegurar a justiça tributária.>
Mas a matemática não convenceu totalmente o mercado, que ainda espera mais detalhes sobre como a conta será paga. Além disso, ficou a percepção de que a preocupação é mais política do que econômica.>
O governo estava pressionado para apresentar medidas que garantissem o equilíbrio das contas públicas.>
Na leitura do mercado, gastos crescentes estavam sendo cobertos com receitas pontuais, chamadas de "arrecadações extraordinárias". A pressão era para diminuir as despesas, e não só achar mais fontes de arrecadação, para que a dívida pública se tornasse mais sustentável.>
O pacote de cortes de gastos endereça essa insegurança sobre a dívida pública.>
Entre as medidas anunciadas, estão: revisão da regra de concessão do abono salarial; regulamentação dos supersalários; aperto nas regras de acesso ao BPC (Benefício de Prestação Continuada); mudanças nas aposentadorias de militares; e limite do crescimento de emendas parlamentares às regras do arcabouço fiscal. Leia a íntegra aqui.>
A expectativa é que a proposta seja encaminhada para o Congresso Nacional até esta sexta.>
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