
Não é do meu tempo, mas lá no meu São Mateus, teve um prefeito, como diziam por lá, analfabetão, da “rede rasgada”, que não se importava com o que falava e muito menos com o lugar e a hora.
Contam as más línguas mateenses que o senhor Amocim Leite (foi reeleito para quatro mandatos) era um homem realmente extrovertido e, em certo ponto, divertido. Quando eleito, no seu primeiro mandato, a banda de música, chamada Lira Mateense, no salão nobre da prefeitura, ensaiou tocar o Hino Nacional. Eis que Amocin, diante da plateia que se posicionava em atitude solene, perfilada, passou o braço na cintura de sua mulher, dizendo: “Vamos, milha filha. Vamos dançar esse sambinha...”.
Ficou famoso com suas saídas, compondo o anedotário que enriqueceu a verve mateense, que o reelegeu seguidamente por quatro mandatos, até que cassaram-no.
Temos atualmente o caso de Daniel da Açaí, homem que pegou o apelido de uma banca que vende suco da tal fruta. Ele acabou alcançado pela Justiça Eleitoral por ter distribuído água de graça à população, abastecida de sua fonte particular.
Sem gastar um centavo dos cofres públicos, ele saía distribuindo água pela cidade, uma vez que, com a influência do mar sobre as águas do Rio Cricaré, o manancial onde era feita a captação para o abastecimento da cidade acabou contaminado. A caridade do prefeito vem lhe custando caro, devido à ação dos seus inimigos políticos, que querem comer seu fígado de qualquer maneira.
Ninguém se apiedou dos moradores de São Mateus, mas o senhor do açaí, vendo que sua bondade poderia lhe render alguns votos, passou a distribuir água de sua bica.
Conheço o prefeito mateense pelo noticiário. Apenas sei, através de mateenses, que sua eleição deveu-se ao reconhecimento da população, que passou a beber água melhor do que a servida pela companhia que explora os serviços de distribuição na cidade.
Vejam que alguns políticos quase quebram a Petrobras, roubam bancos oficiais, carregam malas e mais malas com milhões e ainda assim concorrem nas eleições. Tem alguns que levaram milhões para o exterior, compraram até banco para depositar caminhões de dinheiro fruto de roubo e propina. No caso da minha terra, querem o fígado do prefeito Açaí porque ele apenas distribuía água.
*O autor é jornalista