Não há. Estamos desprotegidos por todos os flancos. Não há proteção nas muretas da Terceira Ponte, mas foram ao chão as barreiras pra que o homem não desse de cara com a sua desumanidade e agora ele brinca de olhos nos olhos com o pior de si. Não há limites para ser o algoz da dor alheia. Barreiras de proteção, deu nas manchetes, serão colocadas no ponte, enquanto as grades que enjaulam a empatia enferrujam com a maresia da Enseada do Suá.
Perdeu-se a ponta da corda que nos dá a segurança de chegar até o irmão de outro sangue e esticar os braços num gesto mínimo de compaixão. A corda subiu para o pescoço e aqueles que se alimentam de indiferença só terão o trabalho de chutar o banquinho para que se consuma o ato. A morte do outro em nada me afeta, a não ser pelo incômodo de atrapalhar minha agenda da Black Friday.
A cidade paralisada reclama. Era morador de rua, “noiado”, joão-ninguém, que diferença faz? Ainda se fosse um anjo com os olhos azuis da classe média haveria motivo para abalar meu chão de estrelas
A cidade paralisada reclama. Era morador de rua, “noiado”, joão-ninguém, que diferença faz? Ainda se fosse um anjo com os olhos azuis da classe média haveria motivo para abalar meu chão de estrelas. Mais uma vez, é no viés social que se esconde o espírito seletivo da dor. Estimular a morte, qualquer morte, porque atrapalharam meu ir e vir é o menu mais indigesto servido no jantar com velas que não serão pro morto.
As situações-limite revelam tratados sobre a desumanidade. Se você se posta no caminho dos meus afazeres, pode pular logo pra eu não perder a minha sessão de massagem tântrica. O sujeito que solta fogos no prédio da Praia da Costa estimulando o suicídio é o mesmo – será que estou a ver miragens? - que põe os joelhos no chão diante do altar para orar por um mundo mais digno.
Será ele o mesmo devoto homem de bem que bate no peito e vocifera em decibéis estrondosos o volume do seu espírito cristão? O volume da hipocrisia ele deixou em fase de testes, já a empatia morreu estatelada na baía e virou comida para os peixes faz tempo. Apresento-vos, nobres leitores, o mundo diminutivo que se descortina sem vergonha diante de nós.
E para quem se sente sobre movediço chão, ligue 188 no Centro de Valorização da Vida, CVV. Toda a proteção é bem-vinda.