Não se deixe enganar pela palavra “acordo” utilizada pelo governo para definir as medidas adotadas para solucionar a crise gerada pela greve dos caminhoneiros, logo após reunião com representantes da categoria, na noite de quinta-feira (24). De um acordo, espera-se harmonia de pensamentos e ações, solução de impasses. Não é isso que se vê nas ruas de todo o país. A paralisação continua em mais de 20 Estados.
Filas em postos, farmácias sem remédios, desabastecimento em supermercados, voos cancelados e até diminuição de rondas de agentes de segurança pública são fatos incontestes de que nada voltou ao normal. O tal “acordo”, na verdade, é mais um desatino de um governo desatinado.
Encurralado – já que o país depende da malha rodoviária –, Temer tomou medidas improvisadas, que custarão aos cofres públicos cerca de R$ 5 bilhões em compensações a Petrobras. Como sabemos, o cobertor é curto: para cobrir o ônus do arranjo, terá que cortar despesas de um orçamento já apertado. E não importa que área seja contingenciada, quem pagará o pato é o contribuinte.
Este é o mais novo capítulo da incapacidade gerencial do governo Temer. O emedebista chegou à presidência sob expectativas de que, pelo menos, arrumasse a casa e implementasse reformas vitais para o país, entre elas a da Previdência. Mas naufragou em todas as tentativas. As denúncias de corrupção que pesam contra ele o deixaram ainda mais refém do Congresso. Não é exagero dizer que a agenda do governo passou a ser a própria sobrevivência.
Em um intervalo de apenas quatro dias, o país chegou à beira do abismo. E esse caos abriu brechas para uma sequência de casuísmos e manobras eleitoreiras. O Congresso pega carona na impopularidade de Temer para promover seus próprios interesses, a exemplo do deputado Rodrigo Maia e de Eunício de Oliveira. O presidente do Senado teve o disparate de viajar em meio à babel. Voltou às pressas, mas não a tempo de desfazer o recado claro de que Brasília é outro mundo, desconectado da realidade.