2017 foi um ano – mais um – de crise política. Denúncias, prisões, votações estimuladas com apoio de emendas e cargos no Congresso Nacional, descrédito das instituições estatais ou não. Vimos de tudo um pouco. Vimos, no entanto, pouca política e muita polícia. Seria bom, tal qual na conhecida marchinha de carnaval, poder dizer quem em 2018 “este ano não vai ser igual àquele que passou”. Não sei se será possível. Os desafios são muitos e a capacidade resolutiva da política tem se apresentada como fraca.
Temos um governo federal com um descrédito sem tamanho e que, após conseguir salvar seu mandato até o fim de 2018, parece não ter mais capacidade de avançar com sua agenda de mudanças. Um Congresso que – também desacreditado – mostrou-se incapaz de produzir um mínimo de transformações no nosso sistema político-eleitoral. Um Supremo Tribunal Federal que avança sobre outros poderes e toma decisões erráticas e mesmo contraditórias. Partidos políticos que, em que pese a mudança de nome, mas se parecem com corporações de ofícios medievais. Isso tem contribuído para destruir a política em nosso país.
Quem pensa a política como guerra, fala em inimigos, vitória, destruição e rendição incondicional. Já outros, entre os quais me incluo, pensam em política como disputa, debate de projetos, confronto, mas que constroí soluções para os desafios que a sociedade encontra.
A política no Brasil precisa, então, recolonizar a própria política, dominada que está pelo vazio dos personalismos e pelos valores de mercado. A política precisa, também, recolonizar o próprio Estado, que está dominado pelos interesses privatizantes de grupos e corporações. Isso contribui para o radicalismo dos atores, para o aumento da corrupção e da desigualdade.
O nosso dilema central é que, junto com a crise conjuntural que vivemos – econômica, institucional, política e social – passamos mundialmente por crise estrutural, seja do sistema de representação, no nível micro, que contribui para enfraquecer ainda mais as instituições e a política, seja a crise dos paradigmas que estruturam a nossa vida social e política ao longo dos últimos cem anos.
Assim, urge que a política saia das páginas de polícia dos jornais e seja fonte de solução para os diversos dilemas de desenvolvimento humano, social e econômico que temos, precisamos reconhecer a força do papel dos cidadãos, a necessidade de construção de um sistema estatal e político que perceba a transparência e a ética como fontes primárias de sua legitimidade, e que reconheça a conexão entre os direitos de igualdade – pauta do século XVIII - e de reconhecimento das diferenças dos cidadãos – pauta do século XXI.
*O autor é doutorando em história (PPGHIS – Ufes) e professor da UVV