Nada é tão ruim que não possa piorar. Como dizia Ulysses Guimarães, “se você acha que o atual Congresso é ruim, então espere pelo próximo”. O doutor Ulysses sabia das coisas.
Em 2016, durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT) na Câmara Federal, os brasileiros ficaram perplexos ao se darem conta do nível dos seus representantes parlamentares (escolhidos por eles mesmos). “Então são esses deputados que nós pusemos lá?” É preciso renová-lo, concluiu o eleitor.
Bem, o quadro desse Congresso “renovado” que saiu das urnas no domingo faz lembrar a obra-prima de Picasso, “Guernica”. Para quem não conhece o quadro, ele é surreal, todo fragmentado e retrata uma cena de puro horror.
Houve, sim, uma renovação muito grande... nos nomes. Alguns políticos tradicionais e seus descendentes de fato receberam um “passa fora” do eleitor, bem como alguns representantes de oligarquias e rebanhos religiosos. Em compensação, é impressionante o fortalecimento da “bancada da bala” no Congresso, além da eleição de youtubers, celebridades e até de ex-ator pornográfico.
Bom lembrar: renovar nomes por renovar, sem critério algum, só “para mudar tudo isso que está aí”, pode se provar um tiro no pé mais à frente. E aí será tarde demais. Existe, sim, o “novo” de verdade. Mas o que tem de velho travestido de novo nesse próximo Congresso – aliás, nestas eleições gerais...
Só os próximos anos nos dirão ao certo se essa “renovação no Congresso” cantada em prosa e verso e comemorada pelos eleitores foi só renovação nominal, ou se também significará uma mudança qualitativa. Analisando muitos dos nomes eleitos, há grandes chances de que o nível consiga piorar ou, no máximo, fique como hoje está – o que já seria péssimo. Em primeira análise, parece mais um museu de grandes novidades e que tem tudo para pegar fogo sozinho, como o Museu Nacional.
Quanto à fragmentação exorbitante, o que vemos também é um painel cubista daqueles de Pablo Picasso. O número de siglas representadas, que já era elevadíssimo, subiu de 25 para 30. Quem quer que seja eleito presidente, não poderá fugir ao imperativo de formar uma coalizão e fazer acordos no varejo com as bancadas para garantir a governabilidade.
Na Assembleia Legislativa, a renovação nominal também foi grande: 50% do plenário. Mas também ali testemunhamos algo igualmente surreal: o que parecia impossível foi atingido. No dia 21 de maio deste ano, publicamos aqui um levantamento que provava que a nossa Assembleia já era uma das mais fragmentadas do país. Tínhamos, àquela altura, 30 deputados estaduais distribuídos por 19 partidos, o que dava uma média de apenas 1,57 deputado por bancada – a 4ª média mais baixa entre os 26 Estados e o Distrito Federal.
Na próxima legislatura, esse número vai piorar. O Parlamento do Espírito Santo terá o absurdo número de 20 partidos representados – média de 1,5 deputado por bancada. Uma autêntica pintura cubista. Casagrande terá mesmo que “dialogar”, e muito, individualmente, com as várias bancadas de um homem ou uma mulher só. Novo varejão à vista no relacionamento político entre governo e Legislativo, o que faz ruir, de partida, aquela ideia ingênua de renovação das práticas políticas dos Poderes só porque mudaram muitos nomes.
Sim, o doutor Ulysses sabia das coisas.
Dá uma folga pro Criador
Derrotado na busca por um 3º mandato no Senado, Magno Malta (PR) não deixou Deus descansar nem no sétimo dia, aliás, nem no dia 7...
“Ele não quis”
Após o resultado das urnas no último domingo, Magno gravou um vídeo no qual disse que foi “Ele [Deus] quem quis dessa forma”.
Dedo de Deus?
Só para constar: Deus não vota, não elege nem derrota candidato, nem é o dedo dEle que aperta a tecla “confirma”. Quem não quis reeleger Magno foram os eleitores e eleitoras capixabas. Simples assim.
“Destino não quis”
Em setembro, Bolsonaro gravou um vídeo no qual disse que “o destino” não quis que Magno fosse o seu vice. Na verdade, quem não quis foi o comando nacional do PR.
As coisas como elas são
Assim fica muito fácil, porque se o político terceiriza decisões políticas e derrotas eleitorais para Deus, para o “destino” e para outras forças que os homens não controlam, jamais poderá ser cobrado, muito menos terá que assumir responsabilidade pessoal por elas. Autocrítica não é pecado nem faz mal a ninguém.
Falando em derrota...
Na eleição de 2016, Camila Valadão (PSOL) foi a 5ª candidata mais votada para a Câmara de Vitória. Não entrou porque o partido não fez coligação. Agora a história se repete: com mais de 16 mil votos, a assistente social foi a 28ª mais votada na eleição para a Assembleia Legislativa, onde havia 30 vagas em disputa. Não entrou porque o partido só se coligou com o PCB. Era uma pedra cantada.
Falando em derrota 2
No dia 3 de outubro, quarta-feira passada, com Contarato (Rede) já crescendo nas pesquisas para o Senado, o deputado federal Lelo Coimbra (MDB) fez um post com as imagens de ambos e o título: “Contarato e Lelo: essa dupla é diferente”. Mas a colagem de Lelo não colou.
Cidade natal e leal
Carlos Manato (PSL) só foi o candidato a governador mais votado em um dos 78 municípios capixabas: Alegre. A alegria maior para Manato veio de sua cidade natal, onde teve 53,86% dos votos válidos.
Belo exemplo
Falando em Manato, o deputado deu um belo exemplo no domingo. Derrotado no 1º turno por Casagrande, reconheceu que a decisão das urnas é soberana.
Pois é...
Já que tem tanta intimidade com Bolsonaro, Manato podia explicar isso para ele. O candidato à Presidência já afirmou que não aceita outro resultado que não seja sua vitória e insiste em alimentar, sem prova alguma, a teoria conspiratória de fraudes nas urnas eletrônicas.
Por que será?
O PSL, partido que abriga os bolsonaristas, teve desempenho formidável nas eleições parlamentares, fazendo quatro dos 30 deputados estaduais no Espírito Santo (a maior bancada) e mais de 50 deputados na Câmara Federal (a 2ª maior bancada, rivalizando com a do PT). Alguém aí ouviu um só desses aliados de Bolsonaro vitoriosos no domingo dando um pio sobre “fraudes nas urnas”?
Desrespeito à democracia
Quando o resultado é o esperado, tudo normal. Quando vem aquém do esperado, a culpa é da urna. Parece aquele jogador que erra o chute e culpa a bola.
Ricardo com Casagrande
Perguntamos a Casagrande se ele visualiza Ricardo Ferraço (PSDB), derrotado na eleição ao Senado, em seu secretariado. Casagrande não fechou essa porta. “Ricardo é meu parceiro. Fiquei muito triste com a derrota dele. É um senador eficiente, tanto no debate das pautas nacionais como no das pautas do desenvolvimento do Estado. Ele foi importante na nossa aliança. Continua sendo meu aliado, e discutirei os assuntos com ele.”
Embate frustrado
Na Assembleia, a próxima legislatura contará com policiais que respondem a inquéritos administrativos abertos pelo atual governo por suspeita de terem liderado a greve da PMES. Por esse ponto de vista, teria sido no mínimo interessante a eleição do ex-secretário estadual de Segurança Pública, André Garcia (MDB). Haveria bons e quentes debates no plenário, que ficará sem um contraponto com a derrota de Garcia.
Garcia x grevistas
Agora, aliás, faz ainda mais sentido por que André Garcia decidiu trocar a candidatura à Câmara pela candidatura à Assembleia, atendendo a um pedido direto do governador Paulo Hartung, como ele mesmo explicou à época.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.