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Vitor Vogas

Dançando à beira do abismo

O que está em jogo hoje é algo muito mais profundo: é o futuro da nossa democracia e do nosso projeto de nação

Publicado em 07 de Outubro de 2018 às 08:21

Públicado em 

07 out 2018 às 08:21
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Bertolt Brecht “falou”, Bertolt Brecht avisou...
Diante da Santa Inquisição, na Itália do século 17, o visionário cientista Galileu Galilei acabara de renegar suas descobertas sobre o heliocentrismo. Não, a Terra não é o centro do universo! Mas, para escapar da condenação e da morte certas, ele concorda em abjurar os seus achados e escritos. Decepcionado com o mestre, seu pupilo, Andrea Sardi, desabafa: “Infeliz a terra que não tem heróis!”
Ao que o sábio replica: “Não. Infeliz a nação que precisa de heróis”.
O diálogo está na peça “A vida de Galileu”, obra-prima do dramaturgo alemão citado no início deste texto. Durante o período nazista e a Segunda Guerra Mundial, Brecht (1898-1956) viveu exilado, temendo a perseguição política. A peça foi encenada na Alemanha pela primeira vez em 1943, no auge da expansão do nazismo pela Europa.
Num momento em que voltamos a flertar despudoradamente com o obscurantismo cultural (tem gente renegando Galileu e voltando a defender sinceramente que a Terra é plana!), a “nação brasileira” desperta hoje disposta a seguir em uma marcha cega e insensata em direção ao abismo do obscurantismo político.
Fernando Haddad e Jair Bolsonaro Crédito: Arte | Amarildo
O que está em cena hoje não é – ao menos não deveria ser – mais um capítulo ou ato decisivo de uma guerra insana, simplista e superficial, que reduz tudo, como se reduzível fosse, a esse duelo raso, paralisante e improdutivo entre “direita” e “esquerda”, “fascistas” e “comunistas”... todos esses rótulos tão fúteis, tão artificiais e tão equivocadamente empregados que não dão conta da real complexidade do nosso tecido político e social. Não, leitores e leitoras.
O que está em jogo hoje é algo muito mais profundo: é o futuro da nossa democracia e do nosso projeto de nação.
O Brasil não precisava, mas se esforçou ao máximo para isto, e as pesquisas de ontem o reforçam: o país parece mesmo determinado a se condenar a essa polarização entre dois extremos políticos, que contêm em si não só radicalismos, não só o germe do autoritarismo, mas especialmente o messianismo: aquela busca sôfrega, tão ilusória, por um salvador da pátria, um herói mítico, como alertava Brecht, que redima o país de todos os seus males, pelo uso de poderes mágicos, ou pior: da força bruta.
Foi assim que os conterrâneos e contemporâneos de Brecht aplaudiram a ascensão de Hitler ao poder. Era assim, na mesma época, que os soviéticos idolatravam Stalin... O personalismo, o culto ao grande líder... A História se repete como farsa, diria o filósofo alemão que inspirou a dramaturgia brechtiana. Tudo isso, é claro, com boas doses de fanatismo político dos dois lados.
O que necessitamos, leitores, como poucas vezes na nossa História, é de instituições fortes, de estabilidade política, segurança, equilíbrio, moderação, conciliação, unificação, pacificação nacional e previsibilidade, para nos colocarmos não a caminho do precipício como nação, mas de volta na direção correta: a do desenvolvimento econômico com justiça social e igualdade de oportunidades, respeito entre os coirmãos, convivência pacífica e harmoniosa entre os diferentes que formam este nosso povo miscigenado. Aí sempre residiu nossa grandeza. Em que ponto nos perdemos? O que fizemos de nós? Precisamos nos reconciliar com nós mesmos e com o irmão ao lado que pensa diferente, em busca da reconstrução de uma nação fraterna e próspera para todos.
Mas é impossível crer que alcançaremos isso nem com Fernando Haddad (PT) nem com Jair Bolsonaro (PSL). Seja com o poste 2 de Lula, seja com o subproduto do antipetismo e da ditadura militar, a perspectiva vai na direção contrária.
Mesma moeda
E o mais curioso (aliás dramático e desanimador) é que os dois representam duas faces da mesma moeda. Embora diametralmente opostos no mapa ideológico, representam no fundo a mesmíssima coisa: populismo, demagogia, bravatas... A julgar pelas pesquisas, os dois deverão avançar ao 2º turno (isso se o amante da tortura e saudosista do arbítrio não liquidar a fatura hoje mesmo). Ao fim e ao cabo, a escolha deverá ser entre o péssimo e o terrível. Ambos, a seu modo, significam atraso. Retrocesso político nos dois casos. No de Bolsonaro, também civilizatório.
De um lado, a ameaça de retorno ao populismo fiscal do PT – com sérios riscos à estabilidade política do país –, a corrupção ainda fresca na memória de um partido incapaz de realizar uma autocrítica ou de reconhecer erros nem sob tortura; um voto que, ante tantas evidências descortinadas pela Lava Jato, pode ter o sentido de um endosso aos anos de pilhagem. Isso sem mencionar o risco de autoritarismo de esquerda representado pelo PT real: não o PT que agora veste a máscara serena de Haddad, mas o de Dirceu que deveria estar preso mas fala placidamente em “tomar o poder”. O PT que “fez o diabo” para se manter no poder em 2014 – diabruras que se voltaram contra ele.
Do outro, temos o horror. O autoritarismo de direita. Ameaça em muitos níveis, não só político e econômico, mas também um retrocesso de décadas em termos culturais, de direitos sociais e de respeito às minorias e aos mais fracos, que deveriam ser protegidos pelo Estado. Mas, acima de tudo, uma chapa que encarna a ameaça de retorno aos tempos sombrios de um governo antidemocrático, no qual “sob tortura” não é exatamente força de expressão. É a ameaça de chegada ao poder de um projeto com ares de ditadura, mesmo que disfarçada, pois Bolsonaro passou a vida louvando o arbítrio e escarnecendo da democracia.
O mesmo deputado que afirmou, em 1999, que “pelo voto não vai se mudar nada neste país” agora pede o seu voto prometendo que vai mudar tudo. Dá para crer? Mas o “novo” de sete mandatos inócuos na Câmara pelo menos ainda escamoteia, agora que está tão perto, sua vocação mal-dirfarçada para ditadorzinho tupiniquim. Um passo atrás dele é que paira a ameaça maior: o vice, Mourão, ditador escancarado, que fala abertamente em autogolpe, Constituição de notáveis, embranquecimento da raça...
Entre a cruz e a espada
Além de jamais admitirem falhas e contradições, nenhum dos dois candidatos manifestou convicções verdadeiramente democráticas nem assumiu verdadeiro compromisso com os valores democráticos até agora. Estamos esperando.
Nesta eleição em que as personalidades se suplantaram às propostas, tomaremos uma decisão emocional no momento que mais nos exigia uma racionalidade galileica. Brasileiros e brasileiras vão às urnas sopesando o que é pior em um candidato e no outro, votando por exclusão e rejeição ao “menos ruim”. Exercendo, enfim, não o poder de voto, mas o de veto. O Brasil merecia mais. O Brasil ainda merece mais.
Um país se faz com homens e livros, dizia Monteiro Lobato. Os livros já têm sido rasgados em bibliotecas e censurados em escolas de ensino básico. Os homens e mulheres hoje têm um encontro com seu destino. Não rasguemos as páginas do nosso futuro antes mesmo que elas sejam escritas. Nem subscrevamos o testamento da nossa democracia.
Enquanto ainda podemos
André Moreira sugeriu, em uma resposta a Casagrande no debate CBN/GAZETA, que eventual governo Bolsonaro pode resultar na cassação de garantias fundamentais do cidadão. “Enquanto meus direitos constitucionais estiverem mantidos – e nós estamos sob o risco de não termos mais esses direitos –, eu posso contestar, sim, o Tribunal de Contas.”
Rose: por menos debates
Após o último de uma maratona de debates, Rose de Freitas contou que, se continuar no Congresso, vai propor alguma regra que limite o número de debates e sabatinas de que um candidato pode participar durante uma campanha eleitoral. Ela diz ter recebido 90 convites, de todo tipo de entidade, ao longo do atual processo. Atendeu a cerca de 40.
Aridelmo com Manato
Aridelmo Teixeira se estabeleceu como um símbolo do antipetismo no Estado. Para a coluna, chegou a admitir que as ideias de Bolsonaro para a educação podem ser consideradas retrógradas e contrárias às suas. “Não só nessa área como em outras também.” Isso não o impediu de declarar apoio a Bolsonaro no debate da TV Gazeta, em possível aceno à classe empresarial da qual faz parte. Ontem, ele participou de carreata em favor de Bolsonaro com Manato. Seu voto, acima de tudo, foi decidido por exclusão, com o objetivo de ajudar a barrar o retorno do PT ao poder.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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