A Copa do Mundo de Futebol acabou, a França ganhou com sua seleção multirracial, Mbappé destronou Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar como rei do futebol, pois o novo sempre vem, e a novidade foi a Croácia ter chegado à final, após vitórias suadíssimas contra outros times supostamente superiores ao seu. Para o mundo, a Croácia deixou a imagem de um povo valente, aguerrido, que luta até o final, mesmo sem forças, e não se rende nunca.
Para eles, sim, cabe o dito que atribuímos a nós, os brasileiros: “Sou croata e não desisto nunca”. O capitão Modric ganhou o troféu de melhor jogador da Copa, que não lhe serviu nem de consolação vista a cara séria com que o recebeu. Por sinal, sorriso é raro na cara do povo croata. Exceção é a simpática presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarovic, que esnobou carisma ao participar de quase todos os jogos com a camisa xadrez vermelho e branco, cores características da bandeira de seu país e de sua seleção. Parece que foi criticada por estar em campanha para reeleição. Pelo menos os croatas têm em quem votar, ao contrário de nós.
Exceção é a simpática presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarovic, que esnobou carisma ao participar de quase todos os jogos com a camisa xadrez vermelho e branco, cores características da bandeira de seu país e de sua seleção
Estive na Croácia, pela primeira vez, em agosto de 1995, ao final da guerra da independência, que durou quatro longos anos e muitas perdas. Desde o trem, da fronteira da Hungria até Zagreb, viajamos com mulheres de negro, mães e viúvas de guerra, com soldados pendurados nos degraus. Somente eu e meu amigo de viagem éramos turistas ali, alienados do que estava ocorrendo. Tínhamos conseguido o visto de trânsito, em Budapeste, para passar pela Croácia em direção à Itália e nem sabíamos que viveríamos os últimos dias de guerra no país.
País muito católico, assistimos a uma missa, em Zagreb, celebrada pela morte dos jovens croatas mortos no ataque de sérvios e montenegrinos em Dubrovnik. Foi uma cerimônia dolorosa estar junto de pais e mães enlutados com a morte de seus jovens filhos. Nunca rezamos tanto pelo fim de uma guerra. Na verdade, jamais tínhamos estado dentro de uma delas.
Depois, voltei à Croácia outras vezes, sobretudo a Dubrovnik, e a Split, construída em torno do palácio do imperador romano Diocleciano. Já visitei quase toda a Croácia, tanto no seu litoral composto de centenas de ilhas, com suas belas pequenas cidades e encantadoras praias, quanto o seu interior. Também visitei cidades croatas fronteiriças à Hungria e Sérvia, quando ficamos retidos em Novi Sad, e não pudemos prosseguir num cruzeiro fluvial pelo Danúbio. Ali visitamos áreas da antiga Panônia romana, celeiro europeu de grãos, e sua produção de vinho branco desde a época dos césares.
Enfim, a Croácia é um país lindo, com um povo destemido e simpático ao turismo. Na final da Copa, a maioria dos capixabas torceu pela Croácia, talvez pela simpatia que se tem ao time em desvantagem, ou, talvez, pelo fato de a Croácia ter semelhante população e área territorial à do Espírito Santo. Mas só isso.
*O autor é professor e escritor