Em vez de evoluir, a política brasileira fica perseguindo o próprio rabo como um vira-lata. A última prova é a indicação da deputada federal Cristiane Brasil (PTB-RJ), filha de Roberto Jefferson, para comandar o Ministério do Trabalho, cota do PTB no governo Temer, no lugar de Ronaldo Nogueira, do mesmo partido.
Em 2005, quando o primeiro governo de Lula (PT) decolava, Roberto Jefferson (PTB) denunciou o mensalão e foi pivô daquele escândalo. Até aquela altura, o PT optara por abrir mão de uma aliança com o PMDB, preferindo garantir maioria no Congresso a partir de uma série de acordos com uma coalização de partidos de pequeno e médio porte, entre os quais o PTB. Rompido com o PT, Jefferson incumbiu-se de revelar as bases sobre as quais esses acordos eram firmados e a governabilidade, garantida.
Jefferson, então – aquele mesmo que fizera parte da tropa de choque de Collor na Câmara e tentara em vão livrá-lo do impeachment em 1992 –, converteu-se no grande anti-herói da política brasileira. Réu confesso (antes que existisse delação premiada no Brasil), bateu de frente com o então todo-poderoso José Dirceu (PT), grande arquiteto do mensalão. Em agosto de 2005, durante uma audiência no Congresso, chegou a dizer na cara de Dirceu que ele lhe despertava “os instintos mais primitivos”. A audiência foi parte do processo de cassação do mandato de Dirceu, que acabaria mesmo fulminado pelos pares. Ambos, aliás, foram cassados.
Anos depois, o destino dos dois voltaria a coincidir: tanto Dirceu como Jefferson foram julgados e condenados pelo STF na ação penal do mensalão. Assim como Dirceu, o ex-deputado federal pelo Rio cumpriu o seu tempo de prisão (passou 14 meses atrás das grades).
De 2005 para cá, muitas coisas mudaram profundamente na política brasileira. Outras, nem tanto.
A primeira mudança significativa – por sinal, o princípio de tudo o que viria depois disso – foi que, para se salvar e reconstruir a governabilidade esfrangalhada com a descoberta do mensalão, o PT se rendeu à máxima de que ninguém governa o Brasil sem o PMDB. Foi o começo da aliança muito bem-sucedida para os dois lados até meados de 2015.
Com o PMDB incorporado ao seu bonde no assento do copiloto, Lula sobreviveu ao mensalão, conseguiu eleger Dilma duas vezes, e a “presidenta” caiu dando lugar à ascensão de Temer. Ou seja, se resgatarmos as origens desta história, como fizemos aqui, não é exagero afirmar que o PMDB, e portanto Michel Temer, só chegaram ao poder como chegaram graças a Roberto Jefferson, mesmo que por um caminho bastante enviesado.
E agora, com esse mesmo PMDB ao volante, quem é que volta a ocupar um lugar privilegiado no governo central? A família Jefferson, cujo chefe teria ajudado a “moralizar” a política brasileira, conforme chegou-se a acreditar há cerca de 13 anos! Quanta ingenuidade! Percebam o círculo vicioso, a ironia da coisa toda, as voltas que, com esses agentes políticos, Brasília fica a dar sem sair do lugar. Muda o partido no poder; não muda a lógica nem a dinâmica do jogo.
O PTB jamais deixou de ser centrão, assim jamais perdeu sua vocação adesista e governista, seja com o PT, seja com o PMDB, seja com quem quer que esteja no comando. Como tal, manteve-se relevante para a governabilidade do presidente Temer. E agora a família Jefferson volta a exercer papel de destaque em Brasília, com a nomeação da filha do ex-mensaleiro para o Ministério do Trabalho, para saciar a gula do pai e do fisiológico PTB presidido nacionalmente por ele.
Bem ao seu estilo teatral de ator de comédia bufa, Jefferson chegou a chorar ontem ao anunciar para jornalistas a indicação da filha. Quem tem motivo real para chorar nesse teatro dos poderosos em que o cidadão é feito de marionete?
Zé Carlinhos definido
O PSD estadual bateu o martelo: o secretário-chefe da Casa Civil de Paulo Hartung, José Carlos da Fonseca Junior, será vice-governador na chapa de algum candidato governista ao Palácio Anchieta ou suplente de algum candidato a senador. Pelo menos esse é o projeto traçado pelo partido para seu ex-presidente estadual.
Caciques do PSD
A decisão foi tomada ontem à tarde, após reunião das três maiores autoridades do PSD no Estado: o deputado estadual Enivaldo dos Anjos e o subsecretário de Estado de Desenvolvimento, Neucimar Fraga, além do próprio Zé Carlinhos. A informação é de Neucimar.
Serjão comemora
O presidente estadual do PTB, Serjão Magalhães, vibrou muito com a nomeação de Cristiane Brasil para o Ministério do Trabalho. Pelo Whatsapp, compartilhou foto sua ao lado da correligionária e a seguinte mensagem: “Bom para o ES! Ela tem relação estreita com o PTB do ES, que está à frente da pasta do Trabalho no Estado. Mais recursos para o ES”. Será? Vamos cobrar.
Só para lembrar...
Serjão é subsecretário de Trabalho, Emprego e Geração de Renda.
Entregas e entregas
Um membro do staff do governo garante ter ouvido de Paulo Hartung, na reunião do governador com o secretariado na manhã de terça, algo muito próximo às seguintes palavras: “Se vocês não forem eficientes para gastar agora, se não tiverem velocidade, esses projetos não vão sair do papel, e com isso estaremos entregando o governo para a oposição”.
O preço do resgate
“Resgate ao nome da família”, seu Jefferson? Não, só o velho “toma lá, dá cá”, uma prática que nunca saiu de moda em Brasília. Alguém por favor nos resgate.
CENA POLÍTICA
O deputado Hércules Silveira (PMDB) deu um susto nos vigias da Assembleia na última terça. É que ele chegou à Casa ainda no meio da madrugada para garantir o primeiro lugar na fila que normalmente se forma na Diretoria de Processo Legislativo, no 1º dia útil do ano. “Eles perguntaram se eu tinha dormido na Assembleia... Faço questão de ir pessoalmente, todos os anos”, contou o deputado, o 1º a protocolar os requerimentos para realizações de sessões especiais e audiências públicas em 2018.