Vivo da confiança. Tenho o orgulho e a alegria de confiar e ser confiável na quase totalidade das minhas relações. Então... Há alguns meses recebi em meu escritório um colega advogado representante de um grande fundo de investimentos, interessado em adquirir empresas no Estado do Espírito Santo. Conversamos por aproximadamente duas horas, quando fiz o que faço com todas as “visitas”: Convidei para comer uma bela moqueca capixaba. Ele não teve dúvidas; recusou o convite e emendou com um: "Lamentavelmente, as regras de compliance do fundo não permitem que 'eu seja visto almoçando com o senhor!' Assim, sem qualquer constrangimento, pois, afinal de contas, não era ele a recusar, era o tal do compliance.
Eu teria ficado horrorizado não fosse pelo fato de que tenho convivido com sua excelência “o compliance” nos ambientes mais diversos. São os médicos orientados a atender as pacientes femininas com uma assistente dentro do consultório, os professores orientados a não ficar com uma aluna, sozinhos na sala, os pais (homens) aterrorizados a não ficarem sozinhos em casa (sem as mães presentes) com os coleguinhas dos filhos e os gerentes de empresas instruídos a não atenderem subordinadas em reuniões particulares (apenas em casos estritos).
Pois é... Dia desses em Brasília uma “autoridade” manteve, ostensivamente, a porta aberta enquanto falava comigo, e justificou que era uma questão de compliance. Só errou ao perguntar: "Não há problemas para o senhor, não é?" Eu, vacinado, respondi: "Para mim não! Não corro o menor risco de ser corrompido!". Ele ficou bem magoado. O resto foi mera conversa improdutiva que não merece registro.
O fato é que estamos doentes. Doentes coletivamente! Pretendemos uma transparência que, longe de ser salutar, está destruindo o tecido social, matando a boa-fé e aniquilando a confiança. O incrível filósofo alemão, nascido na Coreia do Sul, Byung-Chul Han, escreveu a primorosa “Sociedade da Transparência”. No livro, ele deixa claro que onde existe transparência absoluta, a confiança se torna desnecessária. E segue, encantadoramente, explicando que: “A Sociedade da transparência não padece apenas com a falta de verdade, mas também com a falta de aparência. Nem a verdade nem a aparência são transparentes. Só o vazio é totalmente transparente. Para exorcizar esse vazio, coloca-se em circulação uma grande massa de informações e de imagens e um enchimento onde ainda se faz sentir o vazio. Mais informação e mais comunicação não clarificam o mundo. A transparência tampouco o torna clarividente. A massa de informações não gera verdade. Quanto mais se liberam informações, tanto mais intransparente torna-se o mundo. A hiperinformação e a hipercomunicação não trazem luz a escuridão.”
A transparência no setor público é quase uma contingência no Brasil de hoje. A transparência na vida privada, aproveitando o autor citado, é pornográfica e obscena. Sei bem do compliance. Ministro aulas sobre o tema. Entretanto, me recuso a aceitá-lo como verdade inconteste. Ah, o rapaz do fundo foi comer um sanduíche translúcido em um café, e eu fui saborear esta maravilha capixaba: Badejo ao molho de camarão, com muito coentro e pimenta de cheiro. Quando nos encontramos à tarde, ele estava repleto de transparência e eu, cheio de substância!