O Brasil ainda não tem todas as ferramentas para avaliar a extensão do efeito da taxação norte-americana ao aço e ao alumínio. Já se desenham complicadores. Até onde se enxerga neste momento, o aço brasileiro perde a competitividade e estará fora do mercado dos EUA. A lacuna será preenchida, em parte, por produções do México e do Canadá, parceiros americanos no Nafta e isentos da sobretaxa.
Mas os prejuízos podem ser maiores, inclusive para o Espírito Santo. A economia brasileira está numa das piores posições nessa guerra comercial. Será atingida de ricochete se acontecer a retaliação da União Europeia – também agredida por Trump.
A questão é que, pela lei de comércio, a imposição de salvaguarda exigirá que a UE aplique a mesma tarifa para todos os países, inclusive o Brasil. Isso afetará as nossas exportações, atingindo embarques de aço, aço, tabaco, suco de laranja, têxteis, calçados e outros produtos. Alguns saem pelos portos capixabas. Uma lista provisória está sendo examinada em Bruxelas.
Nos corredores do Palácio do Planalto comenta-se que um “ótimo” produto para represália brasileira seria o etanol. O Brasil é o segundo maior comprador de desse insumo aos EUA, e ele entra isento de tarifas. Porém, como alertou o diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comercio), Roberto Azevedo, uma estratégia de “olho por olho” apenas deixaria “todos cegos”.
Curiosamente, a reação brasileira está embutida na barreira alfandegária. A redução das nossas exportações de aço causaria efeito colateral para a indústria de carvão mineral dos EUA, pois o Brasil importa mais de US$ 1 bilhão por ano de carvão americano, utilizado justamente para a fabricação do aço. Só pelo Espírito Santo entraram 116 toneladas nos dois primeiros meses deste ano.
Comércio exterior é muito mais complicado do que Trump imagina. A maior arma do Brasil nesse conflito é a própria necessidade dos EUA. Cerca de 80% do aço brasileiro vendido para eles é semiacabado, que é reprocessado pelas indústrias de lá para se tornar matéria-prima para os setores automobilístico, militar e de petróleo. Será que isso não sensibiliza a Casa Branca? Ajuda a manter americanos empregados.
* O autor é jornalista