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ES: Que História é Essa?

Povos que formam o ES: a história da imigração espanhola!

Ouça a participação do comentarista Rafael Simões

Publicado em 12 de Agosto de 2024 às 11:44

Publicado em 

12 ago 2024 às 11:44
Bandeira Espanha
Bandeira Espanha Crédito: Pixabay
Nesta edição do "Espírito Santo: Que História É Essa?", o assunto em destaque é a imigração espanhola. O comentarista Rafael Simões traz a história. Em 11 de junho de 1889, aportou em Vitória o navio Bourgogne conduzindo 388 imigrantes. Dentre os quais, 350 da Espanha, que haviam embarcado nos portos de Barcelona, Almeria e Málaga, em dia 21 de maio. A maioria dos espanhóis (76%) que vieram para o Espírito Santo, como camponeses imigrantes, era provenientes da região da Andaluzia, com destaque para a província de Granada. Ao todo, estão registrados na base de dado do Projeto Imigrantes 3.539 espanhóis dos quais, 2.941 vieram no século XIX.
ES que História é Essa - 12-08-24
No total, 62% seguiram para a região sul capixaba, para trabalho em fazendas de café, às margens dos rios Itapemirim e Itabapoana. Dos espanhóis que vieram nesta viagem, 230 seguiram para a região de Cachoeiro de Itapemirim, dos quais, 62 direcionados ao núcleo Costa Pereira (Afonso Claudio-Conceição do Castelo); 44 para a fazenda Milagre (Baixo Guandu); 62 seguiram para o Rio de janeiro e 2 para Santa Leopoldina. De outros 12 não se tem informação sobre o destino.
Imigrantes de outras nacionalidades que também chegaram no Bougogne, nessa mesma viagem: Alemanha 6; Argélia 5; Espanha 350; França 16; Itália 74; Marrocos 1; Palestina 11; Polônia 7 e Turquia 3.
Segue abaixo a lista dos sobrenomes dos imigrantes espanhóis que vieram nessa viagem:
ABAURRE - ABELINA - ALBEROLA - ALVARES - ALVAREZ - ANADERO - ANDREU - ARIZA - ARNAN - ASCOYTIA - ASVER - BARABIA - BAUSÁ - BELTRAN - BENITOS - BERNABEU - BERNAL - BLASCO - BRAVO - BUENO - BUSTOS - CABELLO - CAMPO - CANDELA - CAPDEVILA - CARA - CARO - ARRASCO - CARRASCOSA - CARREÑO - CASAMORA - CERESO - CLAUDE - CONTRERA - CORRAL - CORRERA - DE LA TORRE - DEL PASO - DELPASSO - DIAZ - DUCH - ERNAEZ - ESPINAR - FALCEDO - FENOL - FERNANDEZ - FERRER - FIGUEROLA - FUENTES - FUSTER - GARCIA - GARNICA - GARRI - GARRIDO - GARRIGO - GASQUEZ - GIL - GIMENEZ - GOMEZ - GONZALES - GONZALEZ - GORREIS - GUILES - GUMIEL - HAÑEZ - HERNANDES - HERNANDEZ - HILDALGO - HULTADO - IRIARTI - ISIDRO - ISQUIERDO - LAMPARRA - LENGUASCO - LONGAREN - LOPES - LOPEZ - MARDONES - MARIN - MARQUES - MARTIN - MARTINEZ - MATEO - MATOS - MEDINA - MEJIAS - MEMBRIBE - MENDEZ - MICAS - MINGONANCE - MINGORANCE - MIRALLES - MOLINA - MONTERO - MONTES - MONTEYANO - MORENO - MUÑOZ - NAVARRO - NUÑEZ - OTERO - PADIAL - PADILLA - PALENCIA - PARRA - PAYRELOT - PEÑALVER - PEÑALVES - PEREZ - PLANEZ - PORTERO - PRADAZ - PRETEL - PUERTA - RAMON - REINA - REINOSO - REYES - RODRIGUEZ - ROJAS - ROMAN - RUEDA - RUIZ - SALAS - SALAZAR - SALCAMP - SANCHES - SANCHEZ - SANSANO - SANZ - SARMIENTO - SOLER - SORBIER - SORIANO - TAPIA - TARIN - VASQUEZ - VELAZQUEZ - VIL - VILCHES - VOCES - XIMENEZ - ZUÑIGA
Os espanhóis também imigraram em quantidade considerável para o estado no século XIX. Entre 1812 e 1900, foi computada a entrada de 2.620 indivíduos espanhóis no Espírito Santo, colocando-os em terceiro lugar em entradas no estado, perdendo somente para os italianos e alemães. Em relação à região de origem, eram sobretudo da Andaluzia, embora houvesse também indivíduos de Valência, Múrcia e Estremadura.
A imigração espanhola no Brasil foi um movimento migratório, ocorrido nos séculos XIX e XX, para o Brasil. A maioria dos espanhóis foram trabalhar em plantações de café no estado de São Paulo, mas a sua presença também foi importante nos centros urbanos brasileiros. Segundo o censo brasileiro de 1940, 436 305 brasileiros disseram ser filhos de mãe espanhola e 340 479 filhos de pai espanhol. Os espanhóis natos eram 147 914 e os naturalizados brasileiros, 12 643. Portanto, espanhóis e filhos de espanhola eram cerca de 1,5% da população do Brasil em 1940. Segundo outra pesquisa, de 1999, do sociólogo, ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Simon Schwartzman, 4,4% dos brasileiros entrevistados afirmaram ter ancestralidade espanhola, percentual que, numa população de cerca de 205 milhões de brasileiros, representaria quase 9 milhões de descendentes. Em 2014, o El País afirmou haver 10 ou 15 milhões de descendentes de espanhóis no Brasil, mas salientou que não existem estudos sobre o tema.
No período colonial, particularmente durante a União Ibérica, espanhóis estabeleceram-se no Brasil, principalmente em São Paulo. Também foi significativa a presença de indivíduos de origem espanhola na zona fronteiriça do Sul do Brasil no período colonial. Porém, só se pode falar de uma efetiva imigração organizada de espanhóis para o Brasil a partir do final do século XIX. Essa imigração estava inserida no contexto da substituição da mão de obra escravizada nas lavouras cafeeiras.
A imigração espanhola no Brasil é quase sempre ignorada ou tratada com obscuridade pela historiografia brasileira. Porém, os espanhóis foram o terceiro maior contingente de imigrantes recebidos pelo Brasil. Entre 1880 e 1969, 711 000 espanhóis entraram no Brasil, bem à frente dos japoneses (247 312) e dos alemães (208.142), ficando atrás somente dos portugueses (1 604 080) e dos italianos (1576 220).
Os imigrantes espanhóis que vieram para o Brasil eram predominantemente rurais e com origens bastante humildes. A comunidade espanhola ficou concentrada no estado de São Paulo (cerca de 80%), sobretudo nas zonas cafeeiras do oeste do estado. No Rio de Janeiro, a imigração espanhola também foi significativa, mas diferenciou-se por ter sido predominantemente urbana. Os espanhóis assimilaram-se rapidamente no Brasil, ao ponto de uma identidade espanhola ter praticamente desaparecido. A primeira geração ainda mantinha laços culturais com a Espanha, mas depois de 1930, a identidade espanhola foi sendo relegada a um segundo plano, muito embora haja uma tendência de resgate, a partir de 1990.
Imigração a partir do século XIX:
A situação na Espanha
No final do século XIX, a Espanha era um país pobre, que entrou de forma tardia no processo de industrialização. A imigração espanhola foi impulsionada por fatores demográficos e por questões decorrentes da manutenção de uma estrutura fundiária arcaica. Até 1900, cerca de 2/3 da população espanhola se ocupava direta ou indiretamente com as atividades agrárias. À medida que a população rural aumentava, os investimentos com a agricultura diminuíam.
O Brasil como destino imigratório
O que realmente contribuiu para haver uma migração em massa de espanhóis para o Brasil foi o fato de o governo brasileiro subvencionar a passagem de navio. Viajar com a passagem gratuita era muito vantajoso, pois não era fácil bancar uma viagem imigratória. Assim, pode-se concluir que os espanhóis que emigraram para o Brasil estavam entre os mais pobres, aqueles que não tinham condições de comprar uma passagem para ir para a Argentina, Cuba ou para o Uruguai. Isso se evidencia comparando-se as taxas de analfabetismo entre os espanhóis na Argentina e no Brasil. Na Argentina, a porcentagem de imigrantes espanhóis alfabetizados era mais elevada do que no Brasil. Embora o fato de falarem a mesma língua tenha contribuído para uma alfabetização após chegarem à Argentina, também pode-se concluir que o imigrante espanhol na Argentina tinha mais capital do que aquele no Brasil.
A imigração espanhola para o Brasil foi tardia, atingindo seu ápice somente após 1905, e foi voltada para, parcialmente, substituir a cada vez mais rarefeita mão de obra italiana nas fazendas de café do oeste do estado de São Paulo; porém, naqueles anos, o ambiente econômico não estava mais favorável para os imigrantes no Brasil. O imigrante espanhol chegou ao Brasil em uma época de poucas oportunidades. Primeiramente, havia o problema da inflação, que estava corroendo a renda real dos imigrantes. Entre 1889 e 1912, o preço da cesta básica de produtos consumidos por imigrantes que trabalhavam nas fazendas de café aumentou 123%, ao passo que os salários rurais cresceram apenas 15%, no mesmo período.
Outro fator que prejudicou os espanhóis foi a queda do preço do café no mercado internacional, a partir de 1894 (desencadeada pelos ciclos de superprodução), iniciando uma trajetória que durou quinze anos, trazendo graves consequências para a lavoura.
O envolvimento no movimento operário
Os imigrantes espanhóis tiveram forte participação no movimento operário do Brasil de inícios do século XX. Da abolição da escravatura até 1920, imigrantes e filhos formavam a maior parte do operariado brasileiro, devido à concentração das fábricas no centro-sul, onde os estrangeiros eram numerosos. Os espanhóis, nessa época, empregavam-se em indústrias de vários segmentos, sobretudo nas do ramo têxtil, principalmente as mulheres espanholas. Os empregados desse setor estiveram à frente das maiores greves ocorridas, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na Greve Geral de 1917, pelo menos dois espanhóis foram expulsos do país. Dos 556 organizadores sindicais expulsos do Brasil entre 1907 e 1921, 113 eram espanhóis. Isso é um reflexo das ideias socialistas e anarquistas que, a partir de 1890, conseguiram penetrar de forma considerável algumas regiões espanholas.
A proibição da imigração subsidiada para o Brasil
No dia 26 de agosto de 1910, a Espanha emitiu um decreto real, que proibia a imigração subsidiada para o Brasil, ou seja, aquela em que o governo brasileiro pagava a passagem de navio dos imigrantes. O decreto, contudo, não teve muito efeito e, curiosamente, a imigração espanhola para o Brasil atingiu seu ápice após a edição do decreto. O decreto não teve muito efeito porquanto muitos espanhóis não emigravam usando portos da Espanha. A imigração subvencionada funcionou sobretudo na Andaluzia, região com grande número de camponeses pobres.
Devido a sua baixa escolaridade, muitos espanhóis acabaram se juntando à multidão de jornaleiros, ambulantes e agregados urbanos e a outros empregos subalternos. As marcas deixadas pelos espanhóis no Brasil não são evidentes como as deixadas por outros imigrantes. Ao contrário de alemães e italianos, que conseguiram formar colônias isoladas onde retiveram a língua e o patrimônio cultural, os espanhóis se dirigiram para as plantações de café e para os centros urbanos, onde eles eram minoria em meio aos brasileiros e a outros grupos de imigrantes; porém pode-se afirmar que contribuíram de maneira efetiva para a economia e para a cultura brasileira e para a construção social do Brasil moderno.
O censo de 1940 mostrou que, entre os imigrantes no Brasil, italianos e espanhóis foram aqueles que mais rapidamente adotaram o português como língua, e japoneses e alemães foram aqueles que mais resistiram. Um fato que chama a atenção de diferentes estudiosos é a "invisibilidade" dos imigrantes espanhóis no Brasil. Os espanhóis formaram o terceiro maior contingente de imigrantes recebidos pelo Brasil (ficando atrás somente dos italianos e dos portugueses), mas, mesmo assim, os espanhóis têm uma visibilidade menor, na sociedade brasileira, do que os alemães, os japoneses ou os sírio-libaneses.
Existem diferentes explicações para o "desaparecimento" dos espanhóis na sociedade brasileira. Primeiramente, há uma explicação de fundo socioeconômico. Os espanhóis nunca conseguiram dominar um nicho da economia brasileira que os desse visibilidade. Boa parte dos imigrantes espanhóis no Brasil era bastante pobre e ficou concentrada no meio rural paulista, trabalhando em fazendas de café.
Outro fator que explica essa invisibilidade é o pouco interesse do governo da Espanha pelos espanhóis no Brasil. O governo espanhol não era favorável à emigração de seus cidadãos para o Brasil, mas sim para as suas colônias e ex-colônias. Em consequência, o governo e as autoridades consulares espanholas no Brasil não se preocupavam em manter associações que aglutinassem os imigrantes e em promover ações que mantivesse viva uma identidade étnica espanhola, em terras brasileiras. Essa atitude contrastava, por exemplo, com ações do governo alemão e do governo italiano, que se preocupavam muito mais com a situação dos seus nacionais no Brasil e com a manutenção de uma identidade étnica entre os descendentes.
As diferenças regionais na Espanha impediram que um sentimento de nacionalidade se estabelecesse mais fortemente entre os espanhóis. O que imperava entre os espanhóis era o sentimento regionalista. A união dos imigrantes espanhóis e a manutenção da cultura espanhola foram, ao contrário, muito mais fracas. Há exemplos de tentativa de manutenção da identidade espanhola no Brasil, porém esses esforços concentravam-se sobretudo na primeira geração de imigrantes. A partir da segunda geração, a identidade espanhola foi sendo esquecida pelos descendentes. Por fim, contribui para essa invisibilidade a própria ausência de trabalhos sobre o imigrante espanhol no Brasil.
[fonte: Projeto Imigrantes]

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