O ex-presidente da Assembleia Legislativa Theodorico Ferraço (DEM) reagiu na tarde desta terça-feira (5) ao isolamento imposto a ele em plenário por adversários internos. "Essa gente é muito pequena para querer me isolar. Não considero ninguém aqui com capacidade de me isolar. Eu sou um representante do povo do Espírito Santo. Só quem pode me isolar aqui é Deus. Não tem homem aqui para fazer isso não."
Nesta segunda-feira (4), o plenário definiu a formação das 15 comissões permanentes da Casa. A partilha das vagas foi comandada pelo deputado Marcelo Santos (PDT), um notório adversário de Theodorico. Marcelo foi o presidente de um bloco parlamentar criado com a finalidade de organizar a partilha das comissões.
O bloco contou com a adesão de todos os deputados, menos de Theodorico. Mas não por vontade dele. "Não fui procurado", conta o ex-presidente da Assembleia. Theodorico acabou sendo designado como membro de apenas uma comissão (de quatro possíveis): a de Cidadania. Mas, no início da sessão desta terça, pediu ao presidente da Assembleia, Erick Musso (PRB), a retirada do seu nome, porque o ato foi feito à sua revelia.
Quanto ao governador Renato Casagrande, de quem foi importante aliado eleitoral, Theodorico avisa: de agora em diante, terá postura independente em relação ao Executivo. “A minha postura aqui é de independência. Estarei aqui trabalhando em favor do governo, mas sem qualquer liderança na minha frente, atrás ou do lado”, informa ele. “A palavra é independência, até pela motivação do bloco que foi realizado, sem a minha assinatura e sem a minha aquiescência. Ainda bem. Graças a Deus! (...) Tô liberado.”
Naquele seu velho estilo rico em ambiguidades, o experiente deputado de Cachoeiro nega que Casagrande tenha frustrado suas expectativas ou quebrado algum compromisso assumido previamente com ele, mas as palavras do deputado trazem certa mágoa com o governador. Theodorico foi um dos primeiros a apoiar a candidatura de Casagrande ao governo, já no primeiro semestre de 2017, quando nem Casagrande admitia candidatura e todos esperavam que o então governador Paulo Hartung buscasse a reeleição.
"Com a saída do governador Paulo Hartung, ele (Casagrande) não precisou mais de apoio nenhum, porque ele navegou praticamente com candidatos que não chegaram nem perto dele. Então foi uma candidatura que não dependeu de mais ninguém. A partir desse momento, ele não teve mais compromisso com a classe política. Ele fez o que tinha na cabeça dele. Foi buscar secretários e dirigentes de bancos fora do Estado do Espírito Santo. Assumiu a responsabilidade. O que nós desejamos é que ele seja muito feliz", diz Theodorico.
Se ele se sente decepcionado com Casagrande?
"Nem decepcionado nem recepcionado", responde o deputado, à queima-roupa, com raciocínio ágil e palavras cheias de duplo significado. Palavras que devem acender o alerta no Palácio Anchieta.
Confira, abaixo, a entrevista completa de Theodorico Ferraço:
Por que o senhor pediu a retirada do seu nome da Comissão de Cidadania?
Eu não faço parte desse bloco, porque já tenho compromisso com um bloco de carnaval em Guarapari. De forma que, indevidamente, o bloco colocou meu nome como membro de comissão. Ora, o bloco não tinha direito de usar o meu nome. Só tem direito de indicar para comissões quem assinou a formação do bloco. E, como não faço parte do bloco, solicitei que retirassem meu nome. E falei que, modestamente, humildemente, o nosso partido (DEM), que tem três ministros de Estado, o presidente da Câmara dos Deputados, o presidente do Senado Federal, e aqui este modesto deputado e a deputada federal Norma Ayub, o nosso partido aqui nesta Casa é um partido independente.
E agora? O senhor pretende participar de alguma outra comissão?
Não, de nenhuma comissão. O bloco tem o livre direito de manifestação e decisão. Foi um bloco feito de comum acordo com o Palácio Anchieta.
Por que o senhor não assinou a lista de formação do bloco? Foi por livre e espontânea vontade, ou a lista não chegou a ser apresentada ao senhor?
Em primeiro lugar, eu não tomei conhecimento. Não tomei conhecimento em momento algum. Eu tinha muita coisa séria para fazer. E, naturalmente, como eu estava trabalhando muito, aqueles que estavam desocupados trabalhando dia e noite não tiveram tempo de conversar comigo. Graças a Deus. Felizmente.
Como o senhor analisa isso? Foi uma tentativa de Marcelo Santos, que colheu as assinaturas, ou de alguma outra pessoa, ou do Palácio Anchieta, de isolar o senhor em plenário?
Eu não quero falar sobre esse rapaz. Quem tem que falar é o governador, que deu a ele, um ex-líder do governo Paulo Hartung, o papel de continuar liderando a vontade do próprio governador. Então, eu não quero falar sobre esse assunto. Quem tem que falar é o próprio governador.
Mesmo sem o cargo oficial de líder de fato do governo, o senhor acha que é Marcelo Santos quem está exercendo essa função?
Bem, ele exerceu a liderança do bloco, em nome do governador.
O senhor acredita que foi, então, uma tentativa de isolar o senhor em plenário?
“Tentativa”, porque essa gente é muito pequena para querer me isolar. Não considero ninguém aqui com capacidade de me isolar. Eu sou um representante do povo do Espírito Santo. Só quem pode me isolar aqui é Deus. Não tem homem aqui para fazer isso não.
O senhor está decepcionado com o governador Renato Casagrande?
Não. Eu não estou nem decepcionado nem recepcionado. Eu estou desejando que ele faça um bom governo. Espero que ele seja muito feliz. O que eu tinha que conversar com ele conversei durante uma hora e quarenta minutos no primeiro encontro, realizado a seu pedido, e depois, no segundo encontro, todas as manifestações que eu deveria fazer a ele eu fiz. E fiz com carinho, respeito e num momento em que eu achava que devia dar minha opinião. E essa opinião foi respeitada por ele. Nós nos respeitamos muito. E o que eu quero é que ele seja feliz no governo.
O senhor está se referindo à conversa que vocês dois tiveram na manhã da última sexta-feira, antes da sessão solene de posse dos deputados?
Exatamente. Uma conversa muito franca, muito sincera...
E o senhor confirma, deputado, que chegou a pedir ao governador apoio ao seu retorno para a presidência da Assembleia?
Jamais conversei com o governador Renato Casagrande sobre o assunto de Ferraço ser candidato a presidente da Assembleia. Jamais. E ele está aí para confirmar isso. Nem eu falei com ele nem ele falou comigo. A única conversa que houve é que eu era da opinião de que ele deveria ter um presidente do seu partido (o PSB), que poderia contar comigo. Como ele não quis lançar um candidato, é um direito que ele tem.
Que nome poderia ter sido esse?
Eu sugeri o nome do Bruno Lamas, como cheguei a sugerir o nome do próprio Majeski, do partido dele.
Esses nomes teriam contado com seu apoio?
Contariam com meu apoio. E eu disse que não tinha nada contra o Erick (Erick Musso, do PRB, presidente da Mesa Diretora reeleito na última sexta-feira). Se o Erick até me pedisse, não teria problema nenhum de eu votar nele. Mas eu nunca conversei isso também com o Erick. Eu não tive tempo de conversar sobre política. Agora, posso dizer aqui em alto e bom som: nunca o governador teve qualquer compromisso comigo nem eu com ele para ser candidato a presidente da Assembleia.
E que outras manifestações o senhor fez ao governador nessas duas longas conversas?
Foi uma conversa franca, sincera. Uma conversa de quem adotou a candidatura dele no momento em que ele estava disputando com o governador Paulo Hartung. Com a saída do governador Paulo Hartung, ele não precisou mais de apoio nenhum, porque ele navegou praticamente com candidatos que não chegaram nem perto dele. Então foi uma candidatura que não dependeu de mais ninguém. A partir desse momento, ele não teve mais compromisso com a classe política. Ele fez o que tinha na cabeça dele. Foi buscar secretários e dirigentes de bancos fora do Estado do Espírito Santo. Assumiu a responsabilidade. O que nós desejamos é que ele seja muito feliz.
O senhor sente que o governador não cumpriu compromissos assumidos previamente com o senhor?
Não. Ele não tinha nenhum compromisso comigo.
O senhor se sente abandonado de algum modo por ele? Sente que não tenha recebido a devida contrapartida pelo apoio eleitoral que deu a ele?
Pelo contrário. Absolutamente. Eu não tinha razão de ter contrapartida dele. Não pedi nada a ele. Ele não me deve nada.
Não há que se falar em expectativa frustrada?
Não há nenhuma expectativa. Qual é a frustração que pode haver? Eu consegui ser reeleito deputado. A minha mulher se reelegeu deputada federal. O meu partido tem três ministros em Brasília, a presidência da Câmara dos Deputados e, agora, a presidência do Senado. Então o que posso dizer é que não tenho frustração de nenhuma reciprocidade por parte do governador. Eu, sim, estou à disposição para ajudar o Espírito Santo e a ele, se for preciso. Mas eu reconheço que ele não precisa.
E daqui para a frente, deputado? Em plenário, qual será a sua postura em relação ao governo Casagrande?
A minha postura aqui é de independência. Estarei aqui trabalhando em favor do governo, mas sem qualquer liderança na minha frente, atrás ou do lado.
Então o senhor ainda se considera aliado, membro da base do governo?
Eu sou um aliado do Espírito Santo. O que o governo dele fizer de bem para o Espírito Santo, ele poderá contar comigo.
Então a palavra é independência?
A palavra é independência, até pela motivação do bloco que foi realizado, sem a minha assinatura e sem a minha aquiescência. Ainda bem. Graças a Deus!
“Ainda bem” porque isso te liberou?
Tô liberado.
E quanto à reeleição do Erick Musso na presidência da Assembleia, como o senhor avalia?
Avalio a reeleição dele como um ato muito inteligente. Ele já estava eleito praticamente em dezembro, através do governador Paulo Hartung, que mostrou muita inteligência e capacidade. E ele teve uma eleição tranquila. Não teve nem quem disputasse com ele. Então eu acho que ele teve capacidade, mas contou com apoio do Paulo Hartung. E, quando chegou em janeiro, o governo não teve mais como tomar qualquer outra atitude.