Reforma da Previdência: remédio amargo, mas necessário
Vitor Vogas
Reforma da Previdência: remédio amargo, mas necessário
De 2020 a 2023, o governo do Espírito Santo vai gastar mais recursos próprios com Previdência do que com investimentos. Os R$ 9,2 bi para cobrir o rombo no sistema poderiam estar indo para saúde, educação etc.
O anúncio do PPA do governo Casagrande para o quadriênio 2020-2023 fornece um argumento numérico que só reforça a necessidade e a urgência de uma reforma previdenciária no país, a qual, de preferência, abarque também os regimes próprios dos servidores de Estados e municípios. Não será a panaceia vendida por alguns, mas ao menos permitirá ao país começar a reequilibrar suas contas públicas para poder voltar a receber investimentos.
Nos próximos quatro anos, o aporte que o governo estadual terá que fazer para cobrir o rombo no pagamento de pensões e aposentadorias do funcionalismo chega a R$ 9,2 bilhões. O valor corresponde a 12,42% de tudo o que o governo projeta gastar no período e supera os R$ 7,6 bilhões em investimentos previstos com recursos próprios.
Em outras palavras, de 2020 a 2023, o Estado vai gastar mais recursos próprios com Previdência do que com investimentos. Evidentemente, esse volume de recursos drenados pela Previdência, ou revertidos para esse fim, é dinheiro que deixa de ser transformado em investimentos sociais. Dinheiro que poderia ser usado para melhorar a vida da população.
Será um sacrifício grande? Sim, será. Por isso pode-se e deve-se discutir a dosagem do remédio – ou a "dosimetria da pena", como diriam os juristas. O que não dá é para fazer como ainda fazem alguns setores da esquerda e combater cegamente qualquer proposta de reforma, ou até, em alguns casos, negar a própria existência de crateras nos regimes previdenciários dos entes federados.
Até em governos à esquerda, como o de Casagrande, os números reais se impõem aos dogmas ideológicos. O resto é populismo fiscal.
Defensoria chupando o dedo
Como publicamos aqui no dia 31 de agosto, a Defensoria Pública Estadual (Depes) queria emplacar, no PPA, percentual maior para a instituição do que os tradicionais 0,4% que lhe cabem em cada orçamento anual. Nada feito. Vai aumentar, sim, mas só um pouquinho, chegando a 0,49% da receita corrente em 2023.
A propósito
O último concurso para a Depes foi realizado em 2016 e perde a validade no dia 18 de dezembro. O governo tem até essa data para nomear aprovados, reduzindo o déficit histórico de defensores para atender a todas as comarcas. A Comissão dos Aprovados no IV Concurso da Depes já mandou até uma carta para o governador. Para convocar aprovados até o fim do ano, a atual direção da Depes precisaria de uma suplementação orçamentária, pois está em dificuldades.
Universidade Estadual
No anúncio do PPA para o quadriênio 2020-2023, o governo Casagrande desenterrou a ideia de criação de uma Universidade Estadual. No governo passado, o socialista realmente flertou com essa ideia. Mas sua inclusão no PPA foi uma enorme surpresa. Isso porque não há menção alguma a tal proposta no plano de governo de Casagrande, apresentado à Justiça Eleitoral em 2018.
Aliás...
A ideia também não consta dos planos de governo apresentados por Casagrande ao TRE em 2010 e em 2014.
Detalhes
Quem realmente defendeu a criação de uma universidade estadual, na campanha e no plano de governo, foi o ex-deputado estadual Roberto Carlos, hoje na Rede, candidato a governador pelo PT em 2014.
Escola Viva: morreu?
Podem observar: em declarações recentes, Casagrande tem evitado usar o termo "Escola Viva". Prefere falar em "escolas integrais" ou "escolas de tempo integral". Isso também vale para seus subordinados, como o secretário estadual de Planejamento, Álvaro Duboc.
"É só uma marca"
Perguntamos a Duboc: o nome do programa foi abolido? "'Escola Viva' é uma marca", responde o secretário. "Mas o importante não é a marca, e sim o conceito e a estratégia. Vamos cumprir a meta do Plano Nacional de Educação."
Na última terça-feira, em café da manhã com dois jornalistas da "Folha de S. Paulo", Jair Bolsonaro afirmou que Moro, quando juntou-se ao governo, não tinha a "malícia" da política.
É aquela coisa
Para alguns, falta malícia...
É aquela coisa 2
...enquanto para outros sobra milícia.
Quem cavalga quem?
Na mesma entrevista, o presidente afirmou que seu ministro da Economia, Paulo Guedes, era "chucro". A bem da verdade, para ficar nas metáforas hípicas, foi Guedes quem "montou" no candidato do PSL pouco antes da campanha de 2018, vendo nele potencial para ganhar a corrida de cavalos. Isso, logicamente, para conseguir chegar ao Ministério da Fazenda e pôr em marcha o seu projeto econômico liberal, fosse quem fosse o cavalo vencedor.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.