Na ocasião, informamos que a
Promotoria Cível de Vitória, por meio de inquérito aberto em 2017, estava cobrando insistentemente da direção da
Assembleia, sem nenhuma resposta efetiva, algo aparentemente singelo: a publicação, no Portal da Transparência do Poder Legislativo, dos
relatórios semanais de atividades que, em tese, pela resolução então vigente, esses assessores precisavam elaborar e apresentar aos respectivos chefes de gabinetes.
Os relatórios, quando feitos, não precisavam ser divulgados. A Promotoria entendia que a divulgação seria um modo simples e eficaz de favorecer a transparência e a fiscalização por parte não só do
Ministério Público Estadual (MPES), mas de toda a sociedade civil.
Provar que um servidor fantasma é mesmo fantasma não é fácil. Demanda um dispêndio enorme de tempo, pessoal, recursos, às vezes para comprovar um caso isolado em meio a muitos prováveis. Não é sempre que um desses fantasmas “dá a bandeira” que deu, há poucos meses,
um assessor lotado no gabinete de Zé Esmeraldo, que sumiu por semanas em viagem a Rondônia... Melhor que combater, concluiu o promotor que conduzia o inquérito, seria prevenir: publiquem-se, pois, os relatórios. A Assembleia não topou. Resistiu e enrolou até março. Até que a coluna foi publicada, em 22 de março.
Entre a aprovação do projeto e o seu engavetamento, o governo
Casagrande montou uma mesa com representantes de todos os Poderes, mediada pelo secretário estadual de Transparência, Edmar Camata (PSB), com o objetivo de chegarem a um meio-termo, uma proposta alternativa que garantisse mais transparência sobre os atos dos servidores e membros não só da Assembleia, como do MPES e das demais instituições públicas.
Não deu em absolutamente nada.
Aí, quando se achava que tudo continuaria na mesma, a Assembleia logrou a façanha de tornar ainda pior o que já era péssimo:
no dia 16 de julho, os deputados extinguiram a necessidade dos relatórios de atividades. Em vez de evoluir, conseguiram regredir em matéria de transparência. Foi a prova definitiva de que o “projeto da supertransparência”, que inicialmente mereceu até editorial positivo de A GAZETA, nunca passou de um grande blefe da Assembleia e de uma retaliação contra o MPES, por causa daquela pressão da Promotoria Cível de Vitória em prol da publicação dos relatórios de atividades dos “assessores externos” no site da Casa.
No mesmo dia 16 de julho, a Assembleia também aprovou, a toque de caixa,
o projeto de autoria do procurador-geral de Justiça, Eder Pontes, que criou 307 cargos comissionados na instituição. Voz isolada nesse debate, o deputado
Sergio Majeski (PSB) falou em “troca de gentilezas”, sugerindo que as chefias do MPES e da Assembleia teriam feito algum tipo de acordo: os deputados aprovariam prontamente o projeto da cúpula do MPES, enquanto este, em troca, passaria a aliviar na fiscalização sobre os assessores dos deputados.
É neste pé que estamos. Mas, diante de todo o exposto, ficam algumas perguntas para o MPES: e agora, vai ficar assim? O órgão ministerial, defensor do interesse público, vai lavar as mãos, assistindo à Assembleia não só ignorar a cobrança do próprio MPES que deu origem a tudo isso como retroceder nessa matéria? E o inquérito que tramitava na Promotoria Cível de Vitória? E os reiterados pedidos à direção da Assembleia por mais transparência em relação aos “gabinetes externos”?
“O MPES, por meio da Promotoria de Justiça Cível de Vitória, informa que o inquérito civil referente ao caso citado segue em andamento.” Por ora, foi tudo o que recebemos como resposta, por meio de nota enviada pela assessoria de imprensa do órgão.
Menos mal que o inquérito não tenha sido arquivado. Mas resta saber que providências o MPES tomará, ou não, daqui para a frente.