Vinícius Valfré - interino
Para fazer oposição ao governo Bolsonaro não são necessárias formulações profundas. O presidente abastece com pedras as bancadas antibolsonaristas por conta própria. O cenário seria propício a uma reorganização do PT em busca da remoção de desgastes e da retomada da relevância. A imposição de um forte ritmo positivo pelo governo federal na largada empurraria o partido ainda mais em direção ao limbo. Mas o PT parece fazer questão de continuar sendo o velho PT.
Virar a página exigiria deixar de lado a defesa cega ao ex-presidente Lula, o que é impensável. Enquanto isso, a agremiação segue (sem ironia) presa à própria realidade. A entrevista coletiva concedida ontem, em Vitória, pelo ex-presidenciável Fernando Haddad apresentou alguns indícios nesse sentido.
Perguntado sobre como reerguer o partido no Espírito Santo – em péssima fase eleitoral – Haddad ofereceu a gestão do ex-prefeito João Coser como case de sucesso. Mas o mandato de Coser em Vitória acabou em 2012. De lá para cá, o partido perdeu a Grande Vitória, cumpriu tabela em duas eleições para o governo, encolheu bancadas, foi preterido.
A maneira como a mesa de Haddad foi composta para a entrevista também disse bastante: Jackeline Rocha, novata lançada na fogueira da eleição ao Palácio Anchieta no ano passado; José Carlos Nunes, ex-deputado estadual por um mandato que não conseguiu a reeleição; Coser, que acumula duas derrotas eleitorais maiúsculas, ao Senado e à Câmara; Iriny Lopes, que até um dia desse era ministra de Estado e hoje tenta se encontrar na Assembleia Legislativa; e Helder Salomão, a maior aposta do partido para a eleição municipal, mas que pode ter mais a perder do que a ganhar na disputa em Cariacica. Ali estava o melhor que o PT pode oferecer neste momento.
O retrato nacional também é velho. Insistem na ladainha da injustiça contra o líder máximo, da perseguição aos defensores dos pobres e de uma pregação sobre o que deveria ser a agenda prioritária – mesmo que Lula e Dilma, quando puderam, não tenham tocado no assunto.
Com uma reflexão de alguém que já aprendeu que é hora de alguma chacolhada, Haddad saiu-se com esta: “a generosidade tem que imperar sobre projetos pessoais. Tem que pegar a pessoa mais bem posicionada, com condições de comunicar uma ideia transformadora e dar palanque”. O professor Haddad precisa ensinar a lição ao partido inteiro.