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Vitor Vogas

O grande "se" de Casagrande

Publicado em 11 de Maio de 2019 às 23:46

Públicado em 

11 mai 2019 às 23:46
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Crédito: Amarildo
“A incerteza federal, na política e na economia, é a nossa grande ameaça. Tenho dito que, se o Brasil for razoável, nós vamos bem aqui.” A declaração foi dada por Renato Casagrande (PSB) na última sexta-feira, após o Planejamento Estratégico do seu governo. O que o governador está indicando à sociedade capixaba é o seguinte: se Brasília não atrapalhar, ele acredita ter tudo para fazer um bom governo, de realizações e entregas, até 2022. Se Brasília não atrapalhar.
As condições para isso estão dadas, somando-se a boa saúde fiscal com que Casagrande reencontrou o governo (mérito de Paulo Hartung) ao colchão financeiro proporcionado pelo acordo de unificação do Parque das Baleias, firmado pelo Estado com a Petrobras. Para muitos agentes do mercado político capixaba, o governo Casagrande já está “contratado”.
“Se tivermos um país que for regular, vamos ter bons resultados aqui no Estado. Não tenho dúvida nenhuma”, reforça Casagrande. Se “o Brasil” for razoável. Se “o país” for regular. Nesse caso, o governador se refere de modo mais específico ao grande “se” que comanda o país: o governo Bolsonaro. Para Casagrande, se esse for mais ou menos, o seu governo vai bem. Por isso, perguntamos ao governador: até agora, como é que tem sido?
Para Casagrande, na verdade, o maior fator gerador de incertezas e de instabilidade na política e na economia brasileiras, até agora, tem sido o próprio governo Bolsonaro, com todos os desencontros e ataques entre aliados e integrantes da própria administração do militar da reserva, além da ausência de uma agenda clara para o país.
“Até agora, o governo federal não transmitiu segurança para nós. Ainda não deu segurança com relação às matérias prioritárias, na definição dele e no Congresso Nacional. Isso tem deixado não só as instituições públicas mas também a sociedade ainda inseguras com relação ao futuro. A gente ainda assiste e acompanha diariamente um desencontro entre pessoas do próprio governo e entre pessoas aliadas do governo, fazendo muitos ataques a quem está no governo. Isso cria desconfiança. Na hora que o mentor do presidente Bolsonaro, o Olavo [de Carvalho], ataca muito os generais, isso cria uma insegurança, porque os generais hoje se transformaram numa força moderadora, equilibrada, no governo”, exemplifica o governador.
“Então, todas essas incertezas se transformaram na maior ameaça nossa, do Espírito Santo e de qualquer outro Estado”, arremata.
Segundo Casagrande, em consequência dessa insegurança política, ainda pairam muitas incertezas quanto à capacidade de recuperação econômica do Brasil. Os principais indicadores têm sido revistos para pior, frustrando as expectativas de grande parte do mercado de que, com a eleição de Bolsonaro, haveria uma rápida retomada do crescimento econômico.
O desemprego persiste. No primeiro trimestre, a produção industrial voltou a cair. Pela primeira vez em 21 anos, o Brasil não figura no ranking dos 25 melhores países para se investir feito pela consultoria empresarial A.T. Kearney. E, incrivelmente, a partir dos indicadores de abril, a inflação volta a ser uma preocupação para muitos economistas. Tanto que, frisa Casagrande, o Brasil pode até embicar em nova recessão como a de 2015 e 2016. Pode soar exagerado, mas, segundo ele, foi exatamente a perspectiva apresentada para ele e sua equipe pelo economista da UnB José Luiz Oreiro e pelo cientista político César Benjamin (ex-PT e ex-PSOL), palestrantes no Planejamento Estratégico na última quinta.
“Ainda é difícil prever os resultados para a frente. Os indicadores econômicos estão muito decadentes neste momento. E o Brasil está prestes a entrar numa nova recessão. Eles expressaram essa possibilidade aqui ontem”, conta o governador.
Casagrande salienta que, como saída para a crise, o governo Bolsonaro está apostando tudo na reforma da Previdência. Só que isso é insuficiente. “A reforma da Previdência por si só também não resolverá o problema”, crava o socialista.
“Na hora em que o governo pendura todas as suas expectativas na reforma da Previdência sem tomar outras medidas para dar dinamismo à economia, também pode causar uma frustração pós-reforma. “Eu não tenho dúvida de que a reforma será aprovada. Com maior ou menor tamanho, ela será aprovada. Tem um ambiente propício para isso. Mas a aprovação da reforma, por si só, não resolve o problema do Brasil. O país precisa de outras iniciativas para dar dinamismo à economia. Na hora em que você coloca todas as suas expectativas na reforma da Previdência, a reforma é aprovada e o ambiente não muda imediatamente, porque não vai mudar imediatamente, isso também pode criar uma insatisfação.”
De acordo com Casagrande, essa conjuntura nacional é o que explica a cautela que ele tem reiterado em discursos e que tem orientado suas primeiras decisões de governo. Em especial, é o que explica a sua decisão de não abrir novos concursos (embora mantenha os que herdou em andamento) nem de conceder reajuste ao funcionalismo em 2019. “Tem aí uma incerteza que faz com que seja preciso a gente fazer um acompanhamento cauteloso por parte do governo e não assumir compromisso permanente de gasto na administração pública. Estamos com essa preocupação, que deve orientar as nossas ações aqui no Estado.”
“Visão de mundo”
Casagrande afirmou na sexta que, para além da definição de projetos, o Planejamento Estratégico serviu para sua equipe definir a visão de mundo que seu governo pretende demarcar: “Qual o Estado que nós desejamos? Que tipo de relação queremos ter com a sociedade? Quais os valores que pregamos junto à sociedade?”
Visões diferentes
Como já observamos aqui, por meio de várias escolhas, declarações e posicionamentos públicos, essa “visão de mundo” do governo Casagrande difere muito daquela de Bolsonaro na administração federal. Na última sexta não foi diferente. Casagrande reprovou a medida do presidente que libera o porte de armas, por decreto, para várias categorias profissionais, incluindo caminhoneiros, advogados, políticos e jornalistas policiais.
Preocupação com armas
“Estamos muito preocupados com a cultura e a prática que se busca estabelecer no Brasil de flexibilização e liberação do acesso às armas. (...) Para a proteção, temos que equipar bem as nossas forças policiais, toda a estrutura que trabalha com segurança pública, e dificultar o acesso às armas pelos grupos criminosos”, afirmou Casagrande.
Sem “coitadismo”
Como parlamentar e candidato, Bolsonaro sempre foi praticamente um ativista contra os direitos humanos. Na Presidência, delegou a área para o ministério de Damares Alves, ministra que ele mesmo já sugeriu não ser “tão importante”. Casagrande, por sua vez, assinalou a defesa dos direitos humanos como um dos eixos de seu governo: “Nossa linha de trabalho é de proteção aos direitos humanos, de políticas específicas para as mulheres, para jovens negros, para os segmentos mais vulneráveis da sociedade”.
Para lembrar
Casagrande já se posicionou contra as políticas de armamento civil e de encarceramento em massa de Bolsonaro. O governador já fez críticas públicas a pontos da reforma da Previdência, ao enfraquecimento de “mecanismos de proteção social” e à falta de “capacidade de agregar” do presidente. O governo do Estado fez post institucional contra o turismo sexual após o presidente dar declaração desastrosa interpretada como incentivo a tal prática – “Quem quiser vir fazer sexo com uma mulher [no Brasil], fique à vontade”.
Estado forte
Seguindo na contramão da linha liberal de Paulo Guedes, Casagrande defendeu, na sexta, um “Estado forte”, mas “sem nenhum preconceito com o setor privado”. “O que queremos é um Estado forte, que possa controlar as suas atividades, que tenha capacidade de fiscalizar e monitorar as parcerias. Mas abriremos, sim, diversas possibilidades de parceria com o setor privado para que a gente aumente a capacidade de investimento e as ações da administração pública em diversas áreas.”
Em suma
“Dentro da nossa análise, esta é a grande ameaça: aquilo que pode acontecer ou não acontecer na política e na economia nacional. Nós temos hoje as condições de, com cautela, fazer quatro anos de governo com muitas realizações. (...) Temos capacidade. Mas estamos sempre dependendo daquilo que se estabilizará ou não na política e na economia nacional”, conclui Casagrande.

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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