Um povo sem memória e que ignora o seu passado pode construir no presente um futuro melhor? A lastimável declaração do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (Novo), de que saber quem foi Chico Mendes é irrelevante, assombra por muitos motivos: a confissão de ignorância de alguém em tão elevado posto; o tratamento desdenhoso para com a história de um mártir da defesa da Amazônia; o implícito “tô nem aí para a causa dele” (a defesa do meio ambiente e dos seringueiros).
Imagine, leitor(a), o Paulo Guedes dizer que Roberto Campos é irrelevante para o pensamento econômico brasileiro; o Sérgio Moro dizer que Ruy Barbosa é irrelevante para a Justiça do país; o ministro da Cidadania e Ação Social dizer o mesmo sobre Zilda Arns ou Betinho; o chefe do Itamaraty desdenhar do Barão do Rio Branco; o ministro do Desenvolvimento Regional (que abarca o antigo Ministério das Cidades) fazer o mesmo com Oscar Niemeyer. O ministro dos Esportes dizer que Garrincha e Didi são irrelevantes para o nosso futebol de hoje (tão pobre de craques). O ministro da Saúde fazer pouco do legado de Oswaldo Cruz para a medicina brasileira. E o ministro da Cultura apontar a “irrelevância” de Villa-Lobos e Luiz Gonzaga para a nossa música contemporânea.
Releve-se, é claro, o fato de que não existem mais os ministérios dos Esportes e da Cultura (extintos por Bolsonaro).
Imaginou?
A declaração de Salles sobre Chico Mendes tem a mesma dimensão.
ME EXPLICA ISSO DAÍ
Mas já que estamos na seção “frases abomináveis”, como pode o novo ministro da Educação do Brasil expressar tamanha abominação pelo povo brasileiro? Em entrevista à “Veja”, Vélez Rodríguez exprimiu sem meias palavras a sua muito particular visão sobre os “selvagens” nativos desta terra, a qual ele mesmo, nascido colombiano, escolheu para viver. Segundo o filósofo, os brasileiros, quando viajam ao exterior, comportam-se feito canibais. Mas essa, por incrível que pareça, nem foi a pior parte da entrevista.
Mais uma vez, o discípulo e fã declarado de Olavo de Carvalho causou consternação a educadores do país ao expressar a sua concepção de educação – no caso específico, ao repetir sua concepção, já registrada em entrevista ao “Valor Econômico”, sobre o acesso às universidades e o propósito do ensino superior. Segundo ele, as universidades devem ser “reservadas para uma elite intelectual”.
Equivale a defender, sem rodeios, a existência das universidades como espaço exclusivo para uma casta; nas palavras do próprio ministro, “uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica (do país)”, como declarou ao “Valor”. Ocorre, em primeiro lugar, que é impossível dissociar as duas coisas: por historicamente ter acesso muito mais fácil às universidades, é a elite econômica do país que se estabelece como elite intelectual e que se confunde com ela. Casos como o do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, de pessoas que rompem essa barreira com muita luta e sacrifício pessoal, são exceções dignas de aplauso, mas que só confirmam as regras da exclusão e da imobilidade social.
Em todos os rankings mundiais que medem a desigualdade social, o Brasil surge nas piores colocações. Em um país como o nosso, cuja marca maior e mais persistente é essa crônica desigualdade, o acesso ao ensino superior se faz fator decisivo, absolutamente imprescindível, para a ascensão e a inclusão social dos menos privilegiados economicamente.
Em vez de se estreitar esse funil, é preciso alargá-lo: combater esse gargalo, dando aos jovens de todas as rendas condições de acesso e permanência nas universidades públicas do país. O ensino superior deve ser um direito de todos que desejem cursá-lo, desde que sejam aprovados nos processos seletivos e que apresentem o desempenho acadêmico exigido para a conclusão do curso.
Porém, mais que uma questão de oportunidades e de ascensão social, o acesso à academia significa, antes de tudo, acesso ao conhecimento. Algo que deve ser expandido, não limitado. Aliás, a quem convém limitar o acesso ao conhecimento?
Se a universidade é esse espaço tão importante de inclusão social e de expansão do saber, por que ela deve ser “reservada” a uma “elite intelectual”? Universidade para todos, ministro.
Na defesa do meio ambiente, da educação acadêmica como direito universal e até mesmo da memória de nossos vultos, será que estamos andando para a frente ou para trás? A conferir. Mas alguns sinais não animam muito.
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Correção: Mameri
Na última segunda, publiquei que o deputado Emilio Mameri (PSDB) era vice-prefeito de Alto Rio Novo, “sua cidade natal”. Na verdade, ele era vice de Rio Novo do Sul e nasceu em Cachoeiro.