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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Menino Jeremias salva governo Casagrande

Visita do vencedor do The Voice Kids à Assembleia interrompeu obstrução da pauta de votação

Publicado em 13/05/2019 às 22h29
Charge. Crédito: Amarildo
Charge. Crédito: Amarildo

Um bloco de dez deputados descontentes, correspondente a 1/3 da Assembleia, deu nesta segunda (13) irrefutável prova de coesão. Insatisfeitos com o governo Casagrande, eles não têm a maioria em plenário, mas mostraram que estão fechadinhos e que, unidos, são capazes de causar dor de cabeça ao governo. Para marcar posição, os dez realizaram uma operação, relativamente bem-sucedida, de obstrução da pauta de votação. Recado para o Palácio Anchieta: nem tudo vai passar ali como o governo quer.

Autoproclamados “independentes” – mas, sob sigilo, um deles já fala em “oposição”–, os membros do bloco são: Vandinho Leite (PSDB), Lorenzo Pazolini (sem partido), Capitão Assumção (PSL), Danilo Bahiense (PSL), Torino Marques (PSL), Marcos Mansur (PSDB), Rafael Favatto (Patri), Carlos Von (Avante), Hudson Leal (PRB) e Xambinho (Rede).

Um dos pontos de crítica desses deputados ao governo é o excesso de projetos do Executivo votados em regime de urgência. Dessa vez, os dez rebelados fizeram o governo provar do próprio veneno – praticando aquilo que eles mesmos criticam. Em ação claramente coordenada, protocolaram uma enxurrada de pedidos de urgência a projetos de autoria deles mesmos (15, ao todo).

Requerimentos de urgência são incluídos na pauta pela ordem em que são protocolados. Na pauta desta segunda, havia outros quatro requerimentos do tipo, todos apresentados pelo líder do governo, Enivaldo dos Anjos (PSD), pedindo urgência na votação de projetos do governador Renato Casagrande. Mas esses ficaram no fim da fila, atrás dos 15 pedidos de urgência dos “independentes”.

Esses requerimentos são lidos e votados na primeira parte da sessão, o pequeno expediente, o qual, regimentalmente, deve durar no máximo meia hora, prorrogável por mais meia. Já a sessão como um todo deve durar até três horas, prorrogável por mais uma. Com o regimento debaixo do braço e apostando no esgotamento dos prazos, os membros do bloco dos descontentes se revezaram na tribuna para fazer discursos redundantes (a maioria, dispensáveis), para justificar os votos, congratularem-se mutuamente pela propositura dos respectivos projetos etc.

Pazolini subiu à tribuna seis vezes; Vandinho e Assumção, cinco cada um. Tudo nitidamente com o intuito de “fazer cera”. E, de fato, o plano ia dando certo: o plenário levou absurdas duas horas e meia para votar os cinco primeiros requerimentos – média de meia hora por pedido. Naquele ritmo, a sessão teria expirado e os requerimentos de urgência do governo não teriam chegado nem perto de ser votados. No fim, isso só não se confirmou por dois fatores:

Primeiro, o presidente da Casa, Erick Musso (PRB), que conduzia a sessão, decidiu dar um basta à manobra. Com quase todo o tempo da sessão já consumido e mais dez requerimentos de urgência antes dos quatro do governo, interrompeu a sessão por três minutos e pediu aos autores que retirassem de pauta os respectivos pedidos de urgência, de modo que os do governo pudessem enfim ser votados, no que foi atendido pelo bloco dos dez. Dois deles, Assumção e Vandinho, frisaram que só toparam recuar em atenção ao pedido de Erick.

Mas o acordo teve um segundo protagonista, tão involuntário quanto imponderável: o menino Jeremias, campeão da última edição do “The Voice Kids”. A convite de Xambinho (da Serra, como ele), o cantor mirim havia sido convidado para receber homenagem no plenário – diga-se de passagem, algo totalmente à margem do regimento interno. O menino já estava lá, mofando à espera da sua deixa. Xambinho, que faz parte do bloco rebelde, pediu aos colegas para pararem por ali e aceitarem a proposta de Erick, a fim de evitarem a suspensão da homenagem e o consequente constrangimento para o menino e para a Casa.

Não fosse por isso, contaram membros do bloco, eles estariam lá até agora. Ou seja, muito acidentalmente, o governo (quem diria) foi salvo nessa por Jerê.

As quatro urgências pedidas por Enivaldo passaram. Jeremias deu sua palinha. E os rebeldes marcaram posição.

THE VOICE

“Graças a Deus temos voz”, disse Vandinho, que falou textualmente, da tribuna, em “processo de obstrução da pauta”. Eles têm voz; já o governo, reclamam, não tem diálogo.

O recado é dado a poucos dias de o governo enfrentar votações importantes na Casa: a do projeto que cria o Fundo Soberano e a do veto de Casagrande ao projeto da “transparência nos Poderes” aprovado pelos deputados.

“Salvo” pela voz de Jeremias, o governo Casagrande vai ter agora que mudar o repertório e voltar a afinar a relação, para que esses dez parlamentares voltem a virar a cadeirinha para o Palácio. No momento, estão de costas.

EM TEMPO

Nenhum dos pedidos de urgência dos rebelados que chegaram a ser votados na sessão foi aprovado. Mas os vencidos mostraram união. Todos os pedidos foram derrubados por 17 a 10. Ou seja, os dez perderam, mas votaram juntos.

MANATO ESTAVA LÁ

O presidente estadual do PSL, Carlos Manato, estava ontem em plenário.

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