O deputado estadual Marcelo Santos (PDT) está brigado com o deputado federal Sérgio Vidigal. O pomo da discórdia é a decisão de Vidigal, presidente estadual do PDT, de tirar de Marcelo a presidência do PDT de Cariacica e entregá-la, a pedido, para o vereador Itamar Freire. A decisão foi tomada em reunião da Executiva estadual do partido, sem a presença de Marcelo.
Deputado estadual desde 2003, Marcelo filiou-se ao PDT, saído do MDB, há pouco mais de um ano, para concorrer à reeleição na Assembleia. A operação, relembra Vidigal, atendeu a uma solicitação direta do então governador Paulo Hartung. Além da legenda em 2018, Marcelo recebeu de Vidigal, no início do ano, o comando da comissão executiva provisória do PDT em Cariacica. Mas agora foi destituído do cargo, ficando como vice-presidente.
Vidigal explica que a direção estadual recebeu e atendeu a uma demanda de Itamar Freire, pedetista há cerca de 30 anos e presidente municipal antes da chegada de Marcelo. O vereador procurou a Executiva estadual manifestando preocupação. Por determinação nacional, o PDT precisa realizar, até o fim de julho, convenções prévias em todos os municípios. E Marcelo não estaria preparando o PDT de Cariacica para isso.
“Eu não tinha feito com Marcelo esse compromisso de que daria o partido para ele tomar conta”, afirma Vidigal.
Marcelo confirma o descontentamento com a perda do partido em Cariacica. Ao que parece, a medida foi para ele a gota d’água que provoca agora o transbordamento de insatisfações acumuladas desde o período eleitoral. As queixas vão de falta de apoio financeiro na campanha à falta de punição do PDT a Luiz Durão, preso sob a acusação de estupro.
“Sou o único parlamentar estadual da sigla, mas a relação com a direção estadual é inexistente. Isso não é de agora. Aconteceu no processo eleitoral. Recebi R$ 5 mil de repasse do fundo eleitoral. Foi prometido para mim um valor de R$ 150 mil. Se eu fosse contar com essa verba do partido, estaria esperando até hoje. Vidigal gosta de tratar o partido como se fosse a cozinha dele. Podia pelo menos ter colaborado com quem já tinha mandato.”
As críticas de Marcelo também passam por loteamento de espaços no governo Casagrande. “O problema do Vidigal é que ele só pensa em cargo no governo. O que ele queria era fazer como fez mesmo: lotear o governo Casagrande. Encheu o governo de gente dele.”
Vidigal rebate a alegada falta de apoio na eleição. “Fico surpreso. O PDT foi bom para ele. Se não fosse o PDT, ele não ganhava a eleição. Com a quantidade de votos que obteve, teria ficado de fora se tivesse ficado no MDB. Esse é um argumento que ele tem que trocar.”
Quanto ao “loteamento”, Vidigal recorda que Marcelo só não é secretário estadual de Esportes porque ele mesmo desistiu do cargo após ter sido indicado pelo PDT. “A participação do PDT na Secretaria de Esportes só se deu porque ele quis ser secretário de Esportes e aí não quis mais em cima da hora. Quer um partido mais amigo dele do que esse? Não estou entendendo.”
Em face da celeuma, Marcelo sairá do PDT? “Vou discutir isso com meu grupo”, despista ele. Mas faz um último disparo, deixando claro não haver mais ambiente: “O partido não faz nada do que prega: lisura, transparência”.
Vidigal dá sua última rebatida, mas mantém as portas abertas: “Uma coisa muito importante na política chama-se fidelidade, lealdade ao partido. E o PDT sempre primou por isso. Se Marcelo quiser ser presidente do PDT em Cariacica, é só colocar o nome dele e disputar a convenção municipal. E, se quiser ser candidato a prefeito, o PDT não tem problema nenhum que ele seja”.
Receitas de Marcelo
De acordo com a prestação de contas ao TSE, Marcelo Santos de fato recebeu, como alega, repasse de R$ 5 mil da direção estadual do PDT. Ele teve, porém, repasse de R$ 10.928,00 da campanha de Vidigal. Investiu
R$ 47.044,90 na própria campanha.
Mais para os menores
Vidigal argumenta que a orientação na campanha foi dar menos recursos do partido para os candidatos a estadual mais conhecidos. “O PDT nacional, por ter tido candidato a presidente (Ciro Gomes), reduziu muito os recursos para os candidatos proporcionais. Consequentemente, houve mais para os federais. Repassamos de acordo com o que recebemos, dando um pouco mais para candidatos com menos condições. Luiz Durão não teve nada, eu acho.” Como Marcelo, Durão disputou a reeleição a estadual pelo PDT, tendo ficado na 1ª suplência.
Durão: mesma cota
Diferentemente do alegado por Vidigal, Durão recebeu repasse da direção estadual: os mesmos R$ 5 mil destinados a Marcelo.
Queriam outra
Vidigal argumenta que, não fosse por Marcelo, o PDT poderia ter pleiteado outra secretaria estadual. “Não estou entendendo esse negócio de cargos. Renato (Casagrande) nos ofereceu uma participação no governo. Só indicamos o nome dele para secretário de Esportes porque ele manifestou interesse em comandar essa secretaria. Até porque, a princípio, a secretaria mais de acordo com o perfil do PDT não era a de Esportes. De repente a de Assistência Social e Trabalho ficaria conosco. Aí ele desistiu em cima da hora.”
Se ficasse no MDB
O último candidato a estadual do MDB a entrar foi Zé Esmeraldo, com 19.835 votos (16º mais votado). Marcelo teve 19.595 (18º mais votado).