O ex-deputado federal Marcelino Fraga confirma: é mesmo candidato à presidência estadual do MDB, contra a chapa liderada pelo atual ocupante do cargo, o também ex-deputado federal Lelo Coimbra.
“Sou candidato, sim. Tenho muita intimidade com o MDB. Sempre fui militante. Conheço a vida partidária e cada militante do Espírito Santo. Comecei a trabalhar a candidatura no fim do ano passado e já rodei o Estado inteiro três vezes conversando com as bases, porque vi que o MDB estava numa situação desconfortável. Lelo fez muitas ingerências, não cuidou do partido, não cuidou das chapas proporcionais, não cuidou nem da chapa de vereadores em Vitória em 2016 [o MDB, hoje, não tem vereador na Capital]. O partido ficou sem representante no Congresso e, com muita dificuldades, fez dois deputados estaduais. E Lelo foi a maior vítima dele mesmo. Ficou muito preocupado em atender o Paulo Hartung e não cuidou nem da chapa dele a deputado federal. É hora de recuperar o partido.”
Essa disputa começa superaquecida. Marcelino classifica as declarações de Lelo, concedidas à coluna e publicadas ontem, como “ataques” e “mentiras”. Nesta última categoria estaria a carta de apoio a Lelo com a assinatura de 16 dos 18 prefeitos emedebistas no Espírito Santo. Segundo Marcelino, só cinco deles, no momento, têm direito a voto assegurado na convenção estadual, por fazerem parte da atual Executiva estadual: Guerino Zanon (Linhares), Fabrício Petri (Anchieta), Edélio Guedes (Afonso Cláudio), Giló (Mimoso do Sul) e Luciano Salgado (Ibatiba). Os três últimos, afirma Marcelino, o apoiam. “Aquela lista de prefeitos é um apoio mentiroso. O Paulo Hartung e o Lelo botaram muita gente de fora do MDB para ser candidato a prefeito. Acabaram ganhando a eleição, mas não têm intimidade com o partido nos respectivos municípios.”
Marcelino também rebate acusações feitas a ele por Lelo na coluna de ontem. Segundo o atual presidente do MDB-ES, enquanto esteve nas mãos de Marcelino, o partido no Estado foi um “ponto comercial”. Para Lelo, seria necessário impedir o risco de repetição dessa história, representado por eventual retorno de Marcelino ao comando estadual. O desafiante de Lelo devolve as críticas: “Ponto comercial foi sempre da parte dele. Não conseguiu eleger nem a si mesmo deputado federal porque não trabalhou o partido e usou o partido em benefício próprio.”
Lelo também disse à coluna que sua chapa está inserida em um movimento nacional de renovação do MDB, com o intuito de retirar de cena dirigentes com problemas na Justiça. Marcelino contesta essa aderência de Lelo à imagem de renovação partidária. Lelo é vogal na Executiva nacional e foi líder da maioria na Câmara durante o governo de Michel Temer (presidente nacional licenciado do MDB).
“Ele fica fazendo críticas à direção nacional, mas é membro da Executiva nacional e foi líder do governo Temer. Já o Chico Donato está na Fundação Ulysses Guimarães”, aponta Marcelino, em referência ao atual secretário-geral do MDB-ES e presidente do órgão de formulação política do partido no Espírito Santo, além de presidente da agremiação em Vitória. “Lelo falou com sua coluna como se fosse um estranho no ninho. Mas ele não pode criticar a gestão nacional do MDB, porque faz parte dela. Parece que ele é a ‘nova política’, só que ele não representa o novo e sim o muito velho.”
Mas o alvo maior das críticas de Marcelino é o até pouco tempo atrás principal aliado de Lelo, o ex-governador Paulo Hartung. Enquanto esteve no MDB em sua segunda passagem, de 2005 a 2018, Hartung, segundo Marcelino, subordinou o partido a seus próprios projetos políticos e, como presidente estadual desde 2007, Lelo teria se prestado a fazer esse jogo. Só que, em 2018, Hartung abandonou a reeleição, deixando na mão todos os candidatos emedebistas, inclusive o próprio Lelo. Só para, após as eleições, abandonar formalmente o partido. Ou seja, Hartung teria usado o MDB até que a legenda deixou de lhe ser útil.
“Ele acabou com o MDB”, sentencia Marcelino. “Tirou dois senadores do partido [Ricardo Ferraço e Rose de Freitas]. O maior mal do MDB sempre foi o Paulo Hartung. E Lelo sempre atuou a serviço do Paulo Hartung, fazendo as maldades inclusive contra ele mesmo, que não conseguiu se reeleger. O partido tem que estar a serviço dos filiados e cuidar da vida dos municípios. Hoje os dirigentes só cuidam dos próprios interesses eleitorais. Nessa convenção, você vai ver quem realmente tem a base do partido”, anuncia Marcelino.
Façam suas apostas.
Com Moreira em Brasília
Marcelino conta ter o apoio de correligionários de peso, como o deputado estadual José Esmeraldo, o ex-prefeito de Cachoeiro Roberto Valadão e o vereador da Serra Luiz Carlos Moreira. Este, aliás, está a acompanhá-lo em viagem a Brasília. Hoje, os dois pretendem ir ao encontro do presidente nacional em exercício, Romero Jucá, para comunicar a candidatura de Marcelino. “Todos os históricos do MDB estão comigo”, gaba-se o desafiante de Lelo.
Esmeraldo & Marcelino
Na convenção do MDB em Vitória, Marcelino confirma estar do lado de Esmeraldo contra a candidata de Lelo, a ex-deputada estadual Luzia Toledo. Esmeraldo, por sua vez, confirma estar com Marcelino na disputa estadual.
Chico Donato na mira
E a eleição interna do MDB explodiu no plenário da Assembleia. Ontem, Esmeraldo fez da tribuna discurso duríssimo contra Chico Donato, apoiador de Luzia Toledo, adversária do deputado na eleição do MDB na Capital. A própria Luzia é a próxima na alça de mira de Esmeraldo.
Como funciona
A convenção estadual do MDB deve ocorrer até o fim de junho, após as convenções municipais. Terão direito a voto: os 71 membros do atual diretório estadual; os representantes do partido na Assembleia, na Câmara Federal e no Senado (hoje, só os deputados estaduais Hércules Silveira e José Esmeraldo); e os delegados dos municípios que serão eleitos nas respectivas convenções municipais.
Delegados
Cada diretório municipal tem direito a enviar pelo menos um delegado para a convenção estadual, mas esse número pode crescer em função da votação atingida na cidade pelos candidatos a vereador do MDB na última eleição municipal, em 2016 (mais os votos na legenda). A cada 2.500 votos, o diretório municipal ganha o direito a mais um delegado estadual.
Total de convencionais
Pelas contas de Marcelino, a convenção estadual deve ter de 110 a 130 eleitores.