Desde o início da atual legislatura, a Câmara da Serra tem sido o cenário onde se desenrola um seriado lamentável: uma mistura de thriller policial no estilo “Law and Order” com trama cheia de intrigas políticas, no gênero “House of Cards”, além de cabeças de vereadores rolando, tal como em “Game of Thrones”. O resultado é um seriado original, mas muito ruim, que não satisfaz nem o público nem o interesse público:
Em Serra Sedeflix, a terceira temporada da série está a todo vapor, e os roteiristas já têm conseguido o que parecia improvável: superar as duas primeiras temporadas em matéria de confusões políticas. Para você que está começando a acompanhar agora os episódios, não se preocupe! Não precisa se atirar em uma torturante maratona neste domingo de Páscoa. Para te poupar do dissabor, apresentamos hoje uma retrospectiva dos melhores piores momentos desse insucesso da programação on stealing, ou melhor, on streaming.
A primeira temporada começou com um piloto daqueles de tirar o fôlego. No dia 1º de janeiro de 2017, marco inaugural do atual mandato, os 23 vereadores eleitos em 2016 tomaram posse e precisaram eleger os membros da Mesa Diretora da Casa. Foi a deixa para o primeiro grande papelón.
Depois de semanas de confabulações, enfurnados em sítios misteriosos, os edis apresentaram duas chapas: uma da situação e uma da oposição ao prefeito Audifax Barcelos (Rede), reeleito em 2016. A então presidente da Casa, Neidia Pimentel (PSD), estava fechada com a oposição, ou ao menos era o que se acreditava. Mas, na hora do “vamo ver”, inscreveu-se nas duas chapas, para revolta dos opositores.
Na chapa anti-Audifax, Neidia não seria presidente. Mas a turma do prefeito a convenceu a passar para o seu lado, oferecendo-lhe mais um biênio na presidência da Câmara. Com Neidia na cabeça, a chapa audifista prevaleceu, mas a manobra não foi tão bem aceita. A sessão teve direito a extintor de incêndio e a exemplar do Regimento Interno sendo atirados contra adversários. Por milagre, a eleição interna não acabou em pancadaria generalizada.
Mas o reinado de Neidia não iria muito longe. E aí começou outro longo, interminável capítulo nesta trama: a judicialização extrema da política serrana. Em julho de 2017, por decisão liminar, a Justiça anulou a eleição de 1º de janeiro, e Neidia perdeu temporariamente a presidência. Os vereadores chegaram a escolher outra Mesa Diretora. Foi o início de uma disputa política, travada por meio de liminares sobrepostas a liminares. Graças a uma dessas, Neidia conseguiu voltar ao posto em 1º de agosto, dia em que protagonizou um dos capítulos mais patéticos deste enredo: ajoelhou-se na recepção da Casa. Papelón...
Neidia reergueu-se e terminou de pé a primeira temporada. No início da segunda, porém, voltaram a cortar-lhe a cabeça. Por nova decisão judicial, de março de 2018, a vereadora foi afastada da presidência e do mandato, a pedido do Ministério Público Estadual (MPES), sob a acusação de se apropriar de salários de servidores – crime de concussão, o popular rachid, pelo qual o MPES a denunciara dois meses antes. Em novo papelón, vereadores praticamente entraram em “greve”, recusando-se a participar das sessões, mas sem abrir mão dos salários.
Foi a brecha para a ascensão de um então quase figurante que viria a adquirir protagonismo nesta história: o então vice-presidente Rodrigo Caldeira (Rede), alçado à presidência da Câmara. Para aliados de Audifax, Caldeira tornou-se o vilão do seriado. Para os próprios aliados, virou o novo herói. Certo mesmo é que se transformou no grande antagonista de Audifax, apesar de ambos serem do mesmo partido político.
Ainda na segunda temporada, por meio de novas liminares, Caldeira também chegou a ser afastado da presidência. Foi temporariamente substituído pelo vereador Galinhão (PTC), mas acabou voltando ao cargo – uma decisão do Tribunal de Justiça do Estado (TJES) permitiu que ele ficasse na presidência até o fim de 2018. Em 2 de junho daquele ano, numa eleição antecipada também por força da Justiça, Caldeira obteve nova vitória: foi eleito para presidir a Câmara pelo biênio 2019-2020. E hoje é quem dá as cartas na Câmara.
Guerra entre Poderes, CPI, rachid, afastamento...
Já na terceira temporada, chegamos aos momentos mais quentes. Num choque entre os Poderes municipais, Audifax e Caldeira praticamente declararam guerra um ao outro. Audifax diz que, em fevereiro, o presidente da Câmara o procurou para tratar da PPP do Lixo – contrato de R$ 2 bilhões, diluídos ao longo de 20 anos, que a Prefeitura da Serra quer firmar com uma empresa que será concessionária do serviço de coleta e destinação dos resíduos sólidos da cidade.
Caldeira teria sugerido a Audifax que os vereadores gostariam de “participar” da licitação para definição da empresa, o que o prefeito recusou. A Câmara travou a aprovação do projeto para autorizar a PPP. Em março, 16 dos 23 vereadores abriram a CPI da Saúde, para investigar suspeitas de desvios de recursos públicos na saúde municipal. Também instauraram oito (!) comissões processantes para apurar uma denúncia contra Audifax, feita por um cidadão com base em oito irregularidades identificadas pelo corpo técnico do Tribunal de Contas do Estado ao analisar as contas do prefeito referentes ao ano de 2016.
Audifax reagiu. Primeiro, recorreu à Justiça. Em primeiro grau, a juíza Telmelita Guimarães deu decisão favorável ao prefeito, ordenando liminarmente a suspensão das oito comissões. Dias depois, a juíza também ordenou a suspensão da CPI da Saúde. O ato seguinte de Audifax foi político: no dia 2 de abril, convocou a imprensa para acusar Caldeira de ter envolvimento direto com o crime organizado e de querer lhe dar um golpe para tirá-lo do cargo de prefeito.
Caldeira rebateu as acusações, dizendo que o crime estaria mesmo é na prefeitura, e usou a sua vez de recorrer. No último dia 17, em 2º grau, o TJES liberou a retomada dos trabalhos das oito comissões processantes, as quais, no limite, podem culminar com a cassação de Audifax. Enquanto isso, tanto o prefeito como Caldeira solicitaram escolta policial ao governo do Estado. Caldeira e outros vereadores já registraram boletim de ocorrência contra Audifax por alegada difamação.
Como se não bastasse todo esse rolo, coadjuvantes também roubam a cena (e talvez não só a cena) em episódios avulsos. Considerado pelo MPES como dono oculto de uma grande empresa de limpeza, o vereador Nacib Haddad (PDT), aliadíssimo de Caldeira, acaba de ser afastado do cargo pela Justiça. Ele seria integrante de um cartel de empresas do ramo, especializado em fraudar licitações para ganhar contratos de limpeza junto ao governo estadual, prefeituras e câmaras municipais.
E vejam só, o vereador Geraldinho Feu Rosa (PSB) ainda conseguiu ser flagrado a liderar um suposto esquema de rachid em seu gabinete: em vídeo feito por um ex-assessor, ele deliberadamente “pede” aos subordinados que lhe devolvam uma fração dos respectivos salários, a fim de fazer caixa para abastecer sua campanha à reeleição em 2020. Ou seja, já está pensando na quarta temporada. O caso é investigado pelo MPES. É ou não é mucho papelón?
E ainda tem gente que quer ver assalto na Netflix...