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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Hartung em campanha aberta contra Bolsonaro

A marqueteira Jane Mary está fazendo a campanha ao Senado de Fabiano Contarato, da Rede, cujo cacique no ES é Audifax Barcelos, cuja campanha em 2016 na Serra também foi feita por ela.

Publicado em 24/08/2018 às 22h59
 . Crédito: Amarildo
. Crédito: Amarildo

O governador Paulo Hartung (MDB) ainda não anunciou quem apoiará para presidente. Mas já decidiu quem não tem o seu apoio: Jair Messias Bolsonaro (PSL). Fugindo ao próprio estilo, Hartung – outrora tão contido em tomar posições durante eleições presidenciais – está praticamente em campanha aberta contra a candidatura do deputado do PSL, alertando sempre que pode para os riscos visualizados por ele em eventual vitória do candidato que é um produto da ditadura militar, pouco dado ao cultivo e ao exercício de valores democráticos.

O mais interessante a se notar é que esse engajamento de Hartung vem em uma escalada. Já em meados do ano passado, em diversas entrevistas, sempre que instado a analisar o cenário da eleição presidencial, o governador fazia alguns alertas, mas de modo meio tangencial. Falava em “populistas”, “extremistas”, “vendedores de terrenos na Lua”, criticava Donald Trump e advertia para o risco de repetição, em terras tupiniquins, do fenômeno do voto com raiva, “com o fígado em vez da cuca”, do qual os eleitores posteriormente se arrependeriam.

A crítica, portanto, era indireta. Para bom entendedor, Bolsonaro estava ali, no centro do alvo. Mas Hartung evitava citá-lo nominalmente.

De uns tempos para cá – precisamente desde julho –, com a aproximação da campanha, Hartung passou a ser mais direto e incisivo. Em entrevista ao jornalista André Hees, publicada em A GAZETA no dia 15 de julho, pela primeira vez ele deu nome ao boi. O entrevistador lhe perguntou se “surto de populismo”, expressão usada por ele na resposta anterior, seria uma referência a Bolsonaro. “Claro! Óbvio! Tem nome e sobrenome.”

No último domingo, em entrevista à Folha, PH declarou que Bolsonaro representa um “descaminho”. E o fez, novamente, na última quarta-feira, em sua curta mas contundente fala durante o Fórum IEL de Gestão. Dessa vez foi um pouco além e adotou um tom prescritivo, com verbos no imperativo: “Não admirem Trump e não sigam Bolsonaro”.

Esse pronunciamento ganha ainda mais relevo por duas razões:

1. Hartung o fez diante do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ícone da estabilização não só da nossa economia mas sobretudo da nossa democracia, ainda claudicante nos anos 1990 após os sucessivos tombos sofridos em sua primeira infância, com o fracasso do governo Sarney, a superinflação e o impeachment de Collor. O mesmo FHC que Bolsonaro, em 1999, afirmou que deveria ter sido morto pela ditadura, ao lado de “uns 30 mil”.

2. O governador falou diretamente para os ouvidos do PIB capixaba: uma plateia formada por empresárias e, notadamente, empresários. Não é pouco expressivo o fato de que, segundo todas as pesquisas, Bolsonaro alcança seus melhores desempenhos justamente junto aos eleitores mais escolarizados e mais endinheirados – destacadamente, os do sexo masculino. Em ato de forte simbolismo, Hartung falou na “casa da Findes”, entidade que organizou o evento, cujo ex-presidente, Marcos Guerra, é apoiador de Bolsonaro e candidato a deputado federal por seu partido, o PSL.

Ao proceder assim, em militância aberta contra Bolsonaro, PH destoa do seu padrão de comportamento político. Em eleições presidenciais passadas, não tomou lado de maneira tão clara ou, pelo menos, não tão firme. Em 2010, até apoiou Dilma, mas esse apoio foi quase protocolar: limitou-se a fazer uma foto e um breve pronunciamento ao lado da petista em frente ao Palácio Anchieta. Em 2014, ao lado de Aécio (PSDB), já mostrou-se mais assertivo, recebendo-o e acompanhando-o em ato de campanha em Linhares.

Agora, Hartung se estabelece no Espírito Santo como o principal militante anti-Bolsonaro e passa a fazer declarações cada vez mais categóricas contra o “Mito”. Por quê? Para entender a postura de Hartung, basta manter um olho no passado e outro no futuro.

O ex-líder estudantil foi forjado na luta por democracia, para tirar o país da ditadura. Bolsonaro foi forjado na luta em nome da própria ditadura, na defesa e no elogio do regime militar, do qual é um notório admirador e saudosista. Sua mentalidade política nunca saiu de lá. E, após a superação da ditadura, o deputado montou guarda em um Congresso que por ele seria fechado (como também afirmou em 1999) e sempre se manteve firme, como soldado aplicado e obstinado, na linha de frente das carpideiras. A trincheira de Hartung é outra.

Isso olhando para o passado.

Já olhando para o futuro a curtíssimo prazo, Hartung defende a implementação de reformas e de uma agenda modernizadora para o Brasil. A mesma que ele tem convicção de que Bolsonaro não implementará. Com populismo, bravatas, demagogia e estatismo, seria ele, para Hartung, a antítese de um pensamento moderno e modernizador do qual necessita com urgência este Brasil de 2018. Para Hartung, o futuro com Bolsonaro está mais para futuro do pretérito.

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