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Vitor Vogas

Guerra na Serra: o "fator Lamas" na linha sucessória de Audifax

Na visão do prefeito, o "golpe" planejado por Rodrigo Caldeira não tencionaria somente derrubá-lo. O objetivo final do presidente da Câmara seria chegar ao comando da prefeitura ainda no atual mandato, removendo do caminho também a vice-prefeita, Márcia Lamas

Publicado em 04 de Abril de 2019 às 00:22

Públicado em 

04 abr 2019 às 00:22
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

O prefeito da Serra, Audifax Barcelos, acusa o presidente da Câmara do município, Rodrigo Caldeira, de estar a liderar um verdadeiro golpe com o objetivo de apeá-lo do cargo – acusação refutada por Caldeira. Na batalha de versões que perpassa essa guerra política, é preciso compreender a extensão desse “golpe” alegado por Audifax. Na visão do prefeito, o “golpe” não tencionaria somente derrubá-lo. O objetivo final de Caldeira seria chegar ao comando da prefeitura ainda no atual mandato.
Mas como se, na linha sucessória, entre o prefeito e o presidente da Câmara, está a vice-prefeita, Márcia Lamas (PSB)? Pois é. Na ótica de aliados de Audifax, o plano do grupo de Caldeira passaria também por tirá-la do caminho. O próprio Audifax verbalizou isso em sua explosiva entrevista coletiva na última terça-feira: “Dentro desse golpe, está colocada a retirada também da vice-prefeita”.
O raciocínio de auxiliares do prefeito é que o grupo político de Caldeira teria três caminhos para “remover” Márcia. O primeiro seria jurídico: obter decisão judicial que a afaste do cargo. O segundo seria cassá-la, após fazer o mesmo com Audifax, por decisão da própria Câmara. O terceiro é o mais interessante porque requer um raciocínio estritamente político. Com Audifax fora do cargo, Márcia de fato é quem o substitui, mas pode se ver “obrigada” a renunciar voluntariamente por “força das circunstâncias”, ou melhor, por uma questão sanguínea. E aí entra na história um quarto personagem: o filho de Márcia, Bruno Lamas (PSB).
Como sabem até as flores do modesto jardim da Câmara da Serra, Bruno quer ser candidato a prefeito da cidade em 2020. Mas ficará legalmente impedido de disputar a prefeitura se a mãe dele estiver ocupando, ainda que temporariamente, o cargo de prefeita. A Constituição Federal (artigo 14, parágrafo 7º) afirma expressamente que são inelegíveis o cônjuge e os parentes, consanguíneos ou afins, até o segundo grau ou por adoção, do presidente da República, de governador do Estado, de prefeito “ou de quem os haja substituído dentro dos 6 (seis) meses anteriores ao pleito”.
Assim, se assumir o cargo de prefeita, Márcia pode, involuntariamente, tornar o próprio filho inelegível. Pode acabar se tornando, de modo fortuito, o principal obstáculo no caminho de Bruno rumo à Prefeitura da Serra em 2020. Para não atrapalhar o próprio filho, a mãe teria que renunciar até abril do ano que vem. E aí o cargo de prefeito cairia no colo do presidente da Câmara. “De uma forma ou de outra, Caldeira chegaria à prefeitura”, afirma um colaborador de Audifax.
A outra hipótese, claro, é Márcia assumir a prefeitura e concluir o mandato. Mas aí é Bruno quem tem que renunciar... à candidatura. Assim, Bruno Lamas, quem diria, surge como personagem acidental, mas fundamental neste enredo.
Caldeira evidentemente refuta toda e qualquer “tentativa de golpe”. Diz que os vereadores não estão fazendo nada além de cumprir o seu papel fiscalizador.
Mas essa briga está longe de acabar e, com todas essas nuances relativas à linha sucessória, vale a pena redobrar a atenção sobre os próximos acontecimentos.
Contratos na mira
Apuramos que as denúncias que Audifax levou ao conhecimento de TCES, MPES, Polícia Civil e Polícia Federal têm relação com pelo menos três contratos firmados pela Câmara. Um deles diria respeito a fornecimento e manutenção de aparelhos de ar-condicionado.
Enquanto tiver bambu...
A juíza Telmelita Guimarães suspendeu as oito comissões processantes abertas pela Câmara em face de Audifax a partir da mesma denúncia, feita por um morador. Mas declaração de Caldeira não deixa dúvida quanto à predisposição manifesta de seu grupo contra o prefeito: “Se a denúncia chegar de novo, nós vamos acatar. O que chegar nós vamos acatar”. Aliado de Caldeira, Pastor Ailton (PSC) foi ainda mais fundo: “As mesmas oito comissões processantes que Telmelita deu parecer contrário, nós podemos reapresentá-las a qualquer momento. Não parou nada. Ela barrou aquelas oito comissões. Podemos abrir duas, três... É só a Câmara acatar de novo a denúncia.”
Projetos da prefeitura
Entre os projetos do Executivo que Caldeira estaria segurando na Câmara, Audifax destacou na terça um que trata de regularização fundiária e um que autoriza a prefeitura a pagar aluguel social. A Câmara na verdade havia aprovado ambos na véspera. Mas o fez, segundo Audifax, já por pressão exercida pelo recém-criado Fórum Reage Serra. “Ele vai falar o que quiser”, rebate Caldeira.
Falando em Serra...
Enquanto isso, o deputado Sérgio Vidigal virou membro titular da CPI que investigará possíveis irregularidades no BNDES de 2003 a 2015. Seu PDT fez parte dos governos Lula e Dilma (PT).
Cena Política
Em sessão da Assembleia conduzida por Marcelo Santos, Lorenzo Pazolini fazia críticas, da tribuna, ao governo Casagrande. Dois governistas correram ao mesmo microfone para defender a administração, em apartes: Enivaldo e Euclério Sampaio. Primeiro falou o líder do governo. Depois seria a vez de Euclério, mas Marcelo lhe avisou: tempo esgotado. Euclério protestou: “Você deixou todo mundo falar. Por que não vai me deixar também?” Marcelo olhou para ele, pensou por alguns segundos e tascou: “Porque você é Kim Jong-un”. Pior que o cabelo de Euclério lembra mesmo o do ditador norte-coreano!

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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