A oposição nunca teve vida tão fácil. Estamos no quinto mês de governo Bolsonaro, e esse tem sofrido derrota após derrota no Congresso. Algumas delas, acachapantes. Exemplo mais recente e emblemático foi a convocação do ministro Abraham Weintraub para prestar esclarecimentos no plenário da Câmara. O placar: incríveis 307 votos a 82 (só as bancadas do PSL e do Novo votaram contra). Por que isso ocorre? Porque o governo não tem base parlamentar. E por que não tem base? Porque quis.
“Meu partido é o Brasil” é um slogan de campanha muito bonito, sedutor e eficaz. Mas, na vida real, aquela que se sucede à campanha e na qual o eleito precisa governar de fato, não tem a menor sustentação. Nem a menor utilidade.
Bolsonaro se esqueceu de virar a chave. Já na transição, tomou a catastrófica decisão (para si mesmo e para seu governo) de esnobar a negociação direta com as bancadas partidárias, julgando-a dispensável. Preteriu os partidos pelas “bancadas temáticas”, que a rigor não são bancadas (um erro de diletante, inexplicável para alguém que passou os últimos 28 anos na Câmara). Terceirizou a articulação no Congresso para amadores recém-chegados, liderados por Onyx Lorenzoni (exemplar da “nova política”?).
Já houve governos sem base no passado. Antes de Bolsonaro, não havia notícia de um governo sem base por opção, muito menos que se orgulhasse disso. Também já houve presidentes que desprezaram a articulação política e mostraram asco ao Congresso (o mesmo de onde saiu Bolsonaro, é bom não perder de vista). Quase todos caíram. Perguntem a Collor e a Dilma. Articulação política e construção de base parlamentar não são necessariamente sinônimos de fisiologismo e corrupção. É perfeitamente possível montar uma base reunida em torno de uma agenda para o país. Mas o problema original é este mesmo: qual agenda?
CRUZADA IDEOLÓGICA
O que também não tem base (neste caso empírica, teórica, científica, enfim, base alguma) são uma série de medidas que o governo vem adotando, a exemplo de recentes anúncios feitos pelo MEC, como o de redução de investimentos em faculdades de Filosofia e Sociologia, porque “não geram retorno imediato”. Quem mediu esse “retorno”? Como foi mensurado?
Outro exemplo é o bloqueio de verbas para universidades federais. Se fosse só por razões econômicas, vá lá: justificável e compreensível. Mas o primeiro argumento do ministro Weintraub ao anunciar o contingenciamento de repasses (inicialmente restrito à UFBA, à UnB e à UFF, logo estendido a todas) foi de uma subjetividade assombrosa e inescusável em matéria tão sensível: “balbúrdia”.
O mais novo ministro olavista entregou, assim, o “viés ideológico” que também influiu na decisão, para muito além de critérios exclusivamente técnicos e fiscais. Explicitou que a medida também pode ser encarada como parte da cruzada ideológica de vingança e retaliação que se irradia diretamente do gabinete do presidente e que agora também cai nos campi das universidades com o peso de uma bomba anticientificista.