Sem limões não se faz uma limonada. Mas, quando a limonada tem limões demais, ou quando esses são diluídos em pouca água, o suco pode sair muito azedo. Por isso, quando os limões já foram espremidos e não é mais possível retirá-los, o que você faz? Adiciona mais água e dilui o azedume dos frutos. Foi seguindo essa receita simples que o governo Casagrande, auxiliado por aliados de peso na Assembleia, tomou uma “atitude preventiva” contra um potencial foco de pressões sobre o Palácio Anchieta nos próximos tempos: aumentar o número de vagas de membros titulares na Comissão de Segurança da Casa.
E não foi um aumento qualquer. Os titulares, antes cinco, serão nove a partir de agora. Nove! É quase um terço do plenário. Algumas reuniões ordinárias da Comissão de Segurança, com a “capacidade máxima”, poderão ser mais animadas e contar com quórum maior até do que algumas sessões plenárias. Outras duas comissões também tiveram ampliado o número de vagas de titulares, mas em menor dimensão: a de Saúde, antes com três, passou para cinco; já a de Agricultura, que antes também tinha cinco, passou a ter oito titulares. Mas, nos dois casos, o motivo da expansão foi, simplesmente, acomodar mais deputados cujas bandeiras têm afinidade temática com aquelas comissões (muito “doutor” e muito “representante do campo” eleito).
No caso da Segurança, o motivo foi outro. E tem a ver com a história da limonada. O trio formado por Enivaldo dos Anjos (PSD), Erick Musso (PRB) e Marcelo Santos (PDT) agiu, em combinação com o governo Casagrande, a fim de dilatar a comissão e “diluir” os representantes de forças policiais em mais “água governista”. Enivaldo é o líder de Casagrande no plenário. Musso, na condição de presidente da Casa, permitiu a expansão das vagas – em mais um sinal de que está colaborando com Casagrande. Já Marcelo, responsável pela escalação das comissões, encarregou-se de encher as vagas extras com casagrandistas de carteirinha: além dele próprio e de Enivaldo, os dois secretários da Mesa, Luciano Machado (PV) e Emilio Mameri (PSDB), ambos extremamente leais a Casagrande.
Os quatro se juntaram a cinco deputados vindos de forças policiais que tendiam a monopolizar a comissão: Capitão Assumção (PSL), Danilo Bahiense (PSL), Alexandre Quintino (PSL), Lorenzo Pazolini (PRP) e Euclério Sampaio (DC). Os três últimos, principalmente, até podem ser considerados integrantes da base, mas a questão não é essa. O objetivo da mudança foi promover um equilíbrio maior e diminuir a concentração de forças dos policiais na comissão, para evitar que ela pudesse se tornar um “sindicato policial”. Se a comissão virasse um bunker da categoria, dali poderiam sair, sem o necessário contraponto ou contrapeso, projetos em benefício das corporações que poderiam azedar a vida do governo.
“Você tem membros das forças policiais que por si só ocupariam todos os espaços. Mas tem que haver um equilíbrio para que possa haver um debate mais imparcial. O cara que é militar ou delegado vai fazer um debate mais tendencioso, vai favorecer mais sua categoria. Mas você precisa ter um ponto de equilíbrio, nem tanto pra cá, nem tanto pra lá, pois tem hora que você vai ter que dizer não, como um pai responsável. E, na busca desse ponto de equilíbrio, foi ampliado o número de titulares de modo a abrigar alguns não policiais”, conta um articulador do governo.
Tudo foi feito em articulação com o chefe da Casa Civil, Davi Diniz (PPS), e conhecimento total de Casagrande. A decisão foi tomada na última sexta-feira.
A título de comparação, das 15 comissões permanentes, apenas quatro possuem mais de cinco membros: Justiça (7), Finanças (7) e, agora, Agricultura (8) e Segurança (9).
A Comissão de Assistência Social será fundida com a de Saúde, por meio de projeto de resolução.
Na sessão desta quarta, Luciano Machado deu seu cartão de visitas, da tribuna, como “aliadão” de Casagrande: “Quero ser um parceiro. Uma ligação entre o Executivo e o Legislativo”.
Um dos primeiros projetos que Casagrande enviará ao Legislativo é, segundo Enivaldo, um autorizativo para o governo negociar campos de exploração do pré-sal no Parque das Baleias – fruto de longa batalha judicial entre Estado e Petrobras em torno das participações especiais pagas (ou não) pela estatal.
Hoje, às 13h, ocorrerá a primeira reunião da bancada capixaba no Congresso, para escolha do coordenador da bancada. O favorito é o deputado federal Josias da Vitória (PPS).
Na coluna de domingo, demonstramos, com números do Tribunal de Contas do Estado, que o governo passado de Casagrande investiu mais que o último de Paulo Hartung com recursos próprios do Estado. É preciso, claro, ressalvar que PH governou em período de recessão, durante uma “tempestade perfeita”.