Flerte dos Bolsonaro com UDN prova que PSL não passou de trampolim
Vitor Vogas
Flerte dos Bolsonaro com UDN prova que PSL não passou de trampolim
O PSL, na prática, se transformou no PJB: Partido Jair Bolsonaro. Foi a reboque da onda Bolsonaro que elegeu-se a grande maioria dos deputados federais e estaduais e até governadores filiados ao PSL, exitosos nas urnas em 2018. E agora o Jair vai agir como se nada tivesse a ver com o partido e pular para outra sigla, sem mais nem menos?
Presidente Jair BolsonaroCrédito: Reprodução/Instagram
Se os partidos políticos são rejeitados pela maioria da população; se eles, para muita gente, são culpados por grande parte dos problemas da política brasileira; se há, consensualmente, partidos demais no país para ideias de menos; por que um novo partido, que ainda nem fundado foi, e que no fundo nada terá de novo, trará algum tipo de solução para os problemas políticos do país?
E por que um presidente da República, em pleno começo de mandato, sairia da sigla pela qual se elegeu para se incorporar (e ajudar a encorpar) essa 36ª sigla, que viria a se juntar às 35 hoje já registradas no TSE, a grande maioria delas misturadas num emaranhado de oportunismo e falta de ideologia própria? Não se enganem: a "nova UDN", se efetivamente "refundada", só vai engrossar esse caldo de escassez de programas e excesso de charlatanismo que virou nosso sistema partidário.
Se os Bolsonaro trocarem mesmo o PSL pela "nova UDN", os problemas do país continuarão os mesmos. Já os da família no poder dificilmente serão resolvidos num passe de mágica, com a mera passagem de uma sigla para a outra.
Mas pode ser isso que eles procuram. Livrar-se do PSL, pois o teto que lhes deu abrigo momentâneo e que lhes foi muito conveniente na eleição de 2018 de repente passou a ser-lhes um estorvo, com a série de suspeitas sobre o uso de laranjas por parte de dirigentes do partido (acomodados no Planalto em janeiro) e sobre supostos desvios dos recursos públicos repassados ao PSL por meio do Fundo Eleitoral no pleito passado.
E aí, ante as primeiras denúncias, Bolsonaro e os filhos ameaçam partir para outro albergue partidário, como se nada tivessem a ver com o PSL. Mas como não têm nada a ver? O PSL praticamente não existia até o ingresso de Jair Bolsonaro na legenda, no início de 2018. Não tinha bancada, não tinha mandatos, não tinha o menor capital político.
Após um leilão mantido por ele junto a vários nanicos (do tipo “quem dá mais por mim?"), Bolsonaro optou por se assentar no PSL. E foi em torno do então presidenciável, de sua figura pessoal e de seu carisma, que o partido foi organizado ao longo de 2018, principalmente pelas mãos de Gustavo Bebianno – o mesmo agora rifado por Jair Bolsonaro.
PJB
Resumindo: o PSL, na prática, se transformou no PJB: Partido Jair Bolsonaro. Foi a reboque da onda Bolsonaro que elegeu-se a grande maioria dos deputados federais e estaduais e até governadores filiados ao PSL, exitosos nas urnas em 2018. E agora o Jair vai agir como se nada tivesse a ver com o partido e pular para outra sigla, sem mais nem menos?
Na campanha o slogan foi: “O meu partido é o Brasil”. Na vida real – aquela que passa bem longe do fabuloso mundo das campanhas eleitorais –, a verdade é uma só: o partido de Bolsonaro é o PSL, quer ele queira ou não. Foi a roupa que ele vestiu para se tornar presidente.
Mudar de partido agora como quem muda de roupa não vai apagar as manchas da camisa usada por ele em 2018 para entrar no Palácio do Planalto. Nem o fato de que a roupa era dele quando ficou manchada.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.