Casagrande já anunciou: não dará um passo em Brasília sem avisar a todos os membros da bancada federal capixaba. Para facilitar os passos dele na Capital e desobstruir os caminhos do Espírito Santo por lá, o governador precisará contar com um aliado que seja muito eficiente em uma função estratégica: a de líder (ou coordenador) da bancada federal do Espírito Santo em Brasília.
Trata-se de uma peça-chave para o bom trânsito, ou não, do governador no Congresso e, sobretudo, nos ministérios. Precisa ser um parlamentar bem articulado, de preferência experiente e que conheça os atalhos em Brasília. É claro que, em tese, o governador pode dispensar essa ponte e buscar se articular diretamente com o governo federal. A experiência (inclusive, a mais recente) demonstra que isso costuma resultar em encontrões e choques políticos entre governo estadual e bancada, sem o melhor resultado para os capixabas.
Durante o último governo de Hartung, ele e a bancada não estiveram na mesma sintonia, o que se traduziu nas muitas trombadas públicas do governador com a senadora Rose de Freitas (Podemos) e com o atual coordenador da bancada, Marcus Vicente (PP), por exemplo em questões como o Aeroporto de Vitória e o contrato de concessão da BR 101.
Casagrande indica querer evitar isso. O problema: quando se olha mais de perto o perfil dos 13 representantes capixabas que atuarão no Congresso nos próximos quatro anos (dez deputados e três senadores), percebe-se certa carência de um nome certeiro que reúna as qualificações para a função.
Aliado de Casagrande, Marcus Vicente até possui esse perfil de articulador, mas não se reelegeu. Tornou-se secretário estadual de Desenvolvimento Urbano. Pela experiência de dois mandatos na Câmara e pela proximidade com Casagrande, Paulo Foletto (PSB) seria um nome natural. Mas ele foi puxado para a Secretaria Estadual de Agricultura, deixando a sua vaga para o neófito Ted Conti (PSB). Novato também é o outro deputado eleito pelo PSB, Felipe Rigoni.
Norma Ayub (DEM) foi reeleita pela coligação de Casagrande, mas está há dois anos na Câmara e não tem o perfil necessário. De volta à Câmara, Lauriete (PR) já declarou que ajudará o governo Casagrande, mas seu primeiro desafio será o de articular o próprio mandato, sem Magno Malta (PR) no Senado. Soraya Manato (PSL) é aliada e esposa de Manato e precisa se ambientar ao Congresso.
Amaro Neto já proclamou ter ótima relação com “Big House” (como ele chama o governador), mas é outro que está entrando agora no ônibus.
Deputado reeleito, Helder Salomão até tem experiência, mas é do PT, ou seja, seus serviços serão de pouca valia na interlocução com o governo Bolsonaro.
No Senado, os dois eleitos em 2018, Marcos do Val (PPS) e Fabiano Contarato (Rede), ainda estão adaptando as narinas e os pulmões ao ar seco do Planalto Central.
Quatro nomes: a senadora Rose de Freitas, os deputados reeleitos Sérgio Vidigal (PDT) e Evair de Melo (PP), além de Josias da Vitória (PPS), que chega agora à Câmara. O coordenador sairá desse quarteto. E os dois primeiros têm mais chances.
Conforme a coluna apurou, a inexperiência de Da Vitória na Câmara não o impede de postular a posição de líder da bancada. Discretamente, está se articulando e sondando futuros colegas, incentivado por Amaro Neto, seu aliado na Assembleia ao longo dos últimos quatro anos. Se sentir que tem votos suficientes (7), Da Vitória abordará o tema com Casagrande. E, se perceber que dá, vai para cima.
Evair é outro aspirante à função. Sem alarde, ele também já vem se articulando e conversando sobre o tema com Casagrande. Pode até chegar lá, mas dificilmente com respaldo do governador. Desde o episódio em que Evair tornou público o convite de Casagrande (recusado pelo deputado) para chefiar a Secretaria de Agricultura, a relação de confiança ficou abalada. Segundo relato de colaboradores, o governador ficou irritado com o episódio.
Prestes a iniciar o segundo mandato seguido na Câmara, Vidigal não se destacou como articulador político em Brasília nesta quadra que agora se encerra. Mas priva da confiança de Casagrande (chegou a ser convidado para integrar o secretariado, mas rejeitou a oferta). Como aliado forte do governador, pode ser alçado à condição de líder da bancada. O porém é que Vidigal é, antes de tudo, fiel deputado do PDT, partido que pode até liderar um bloco de oposição a Bolsonaro no Congresso. Por isso, como elo do governo estadual com o federal, pode ser tão eficiente quanto a Quarta Ponte.
Noves fora, Casagrande poderá sempre contar com os préstimos de Rose – uma aliada antiga, com quem manteve pacto velado de não agressão na última corrida ao Palácio Anchieta.
Pode ser que ela seja feita líder, pode ser que não... Na prática não faz muita diferença. Com ou sem o título, Rose será provavelmente a integrante da bancada mais útil a Casagrande no trabalho de “descerrar portas” em Brasília. Isso ficou demonstrado na última quarta-feira, quando Casagrande bateu pernas e portas pela Esplanada dos Ministérios para apresentar a agenda do Espírito Santo, e Rose o acompanhou em audiência com o ministro do Desenvolvimento Regional.
A escolha do líder da bancada federal é feita, normalmente, na 1ª semana do ano legislativo – portanto, a 1ª de fevereiro. São os próprios membros da bancada que deliberam e decidem entre si quem ocupará o posto, em reunião no Congresso. O governador, portanto, não vota, mas pode influenciar a decisão. O líder é escolhido a cada ano e pode ser mantido na função de um ano para o outro.
Perguntamos ao deputado federal Carlos Manato (PSL) quem ele acha que será o principal articulador de Casagrande em Brasília. Ele responde na terceira pessoa: “O principal articulador acho que vai ser Manato”. Em fevereiro, o deputado encerra o mandato e assume o cargo de secretário especial para a Câmara Federal no governo Bolsonaro. Ele ressalva: “Seria o Paulo Foletto, mas agora não sei”.
No domingo passado, referi-me ao Subtenente Assis como “rosto novo na política” e afirmei que o policial militar estreou nas urnas em 2018. Essa informação está errada. Na verdade, em 2018, ele só estreou nas urnas a patente de subtenente. Antes de disputar uma vaga no Senado no ano passado, o bombeiro Sergio de Assis Lopes foi candidato a vereador de Cariacica em 2016, pelo PP, com o nome de urna Sargento Assis. Teve 1002 votos. Antes disso, em 2014, concorreu a deputado estadual pelo PRB, como Sargento Assis. Teve 4.929 votos.
No Orçamento de Casagrande, chama a atenção o aumento proporcional da fatia de recursos para a Secretaria de Justiça de 2018 para 2019. É a pasta que administra o sistema prisional estadual. “Isso reflete o aumento da população carcerária”, explica o secretário de Planejamento, Álvaro Duboc. Entre dezembro de 2017 e dezembro de 2018, a população carcerária cresceu em 1,8 mil detentos no Espírito Santo. E a previsão é a mesma para 2019. Cada preso custa, em média, R$ 3 mil por mês aos cofres públicos. “Então temos um aumento de R$ 60 milhões, R$ 70 milhões, no custeio da Secretaria de Justiça.”
Ou seja, esse aumento no orçamento da Sejus não é para novos investimentos, construção de novos presídios, nada disso. É, basicamente, para o governo dar conta de cobrir o “crescimento vegetativo” do sistema prisional.
Situado no campo de centro-esquerda, o governo Casagrande pode ser considerado “progressista” em questões sociais. Já no campo fiscal, começa de modo “conservador”, como se viu no Orçamento. O “conservadorismo”, no caso, é sinônimo de cautela.