O presidente Bolsonaro insiste em não se ajudar e demonstra uma tendência compulsiva ao erro e à autossabotagem. Quando deve falar, não fala; quando fala, fala o que não deve. Depois da inacreditável “crise do golden shower”, discursou nesta quinta-feira (7) em cerimônia do Corpo de Fuzileiros Navais, na Fortaleza de São José da Ilha das Cobras, no centro do Rio de Janeiro. Em pouco mais de 4 minutos, afirmou ter sido eleito para cumprir uma “missão” e conseguiu produzir a seguinte declaração:
“A missão será cumprida ao lado das pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa, daqueles que amam a democracia. E isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Força Armada assim o quer.”
Na fala de Bolsonaro, há uma mensagem implícita grave, praticamente uma ameaça velada: na visão expressada por ele, se as Forças Armadas quiserem, têm o direito de tomar o poder à força, solapando a democracia. Errado. As Forças Armadas não estão fazendo nenhum favor aos civis ao zelar pela preservação das liberdades democráticas no país. Na verdade, essa é a sua obrigação. O artigo 142 da Constituição Federal estabelece, entre os deveres que competem às Forças Armadas, o de garantir os poderes constitucionais, ou seja: proteger as instituições democráticas nacionais. Não porque querem, mas porque devem.
No mínimo indevida, a escolha de palavras de Bolsonaro pode, no limite, ser interpretada como encorajamento a atitudes golpistas à moda maduro-chavista. É mensagem completamente inapropriada, mais ainda porque vinda de um presidente eleito democraticamente e que apenas iniciou o seu governo.
Mas é exatamente aí que pode estar a explicação para a adoção dessa linha discursiva: Bolsonaro mal começou o seu governo, mas já se encontra acuado por problemas, os quais, em grande parte, foram criados ou maximizados por ele mesmo, por seus filhos, assessores e ministros. Por isso, parece querer buscar refúgio no ambiente em que se sente mais seguro e à vontade – daí a clara preferência, na agenda oficial, para eventos em espaços militares.
Ao mesmo tempo, acena cada vez mais fortemente para os seus seguidores mais fiéis (e apenas para eles), barreira de apoio político atrás da qual procura se blindar das críticas, como um cordão de isolamento. São esses apoiadores os eleitos para ajudá-lo no cumprimento da “missão”. E aí temos o segundo grande problema da fala de Bolsonaro: a contradição com a promessa do candidato que dizia que, uma vez no cargo, governaria para todos, sem diferenças.
Esse discurso reforça o maniqueísmo do “nós contra eles”, no pior estilo lulopetista, que divide brasileiros em amigos ou inimigos. “A missão será cumprida ao lado das pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família.” Por analogia, quem não é partidário dele e de seu governo não é “pessoa de bem”, não ama a pátria e não respeita a família.
Por fim, pelo menos agora, pela primeira vez, Bolsonaro admite uma obviedade: seu governo segue uma ideologia própria – “daqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa”. Já era mesmo hora de abandonar a ideia farsesca de que seu governo não possui “viés ideológico” e que a ideologia seria um mal em si e só existiria nos outros governos.
Decide aí
Se o presidente Jair Bolsonaro ama tanto assim a democracia, seria aconselhável que deixasse no passado o hábito de elogiar publicamente ditadores – até por uma questão de coerência. No dia 26 de fevereiro, na fronteira com o Paraguai, Bolsonaro dedicou elogios efusivos ao general Alfredo Stroessner, a quem chamou de “estadista” e “homem com visão”, durante cerimônia de nomeação das novas autoridades da usina hidrelétrica de Itaipu. “Então, aqui está minha homenagem ao nosso general Alfredo Stroessner.”
Se a intenção do presidente foi agradar os vizinhos, passou longe do efeito desejado. O presidente paraguaio, Abdo Benítez, ficou estático. Figura muito controversa em seu país, Stroessner governou o Paraguai por 35 anos, de 1954 a 1989, período em que conduziu com mão de ferro uma das mais violentas e corruptas ditaduras latino-americanas (a mais longa na América Latina no século XX, depois da dos Castro em Cuba). O “estadista” é considerado responsável por crimes de lesa-humanidade, incluindo milhares de prisões arbitrárias, torturas, exílios e desaparecimentos. Como se não bastasse, é acusado de pedofilia.
Para dizer o mínimo, foi mais uma escolha ruim de palavras de Bolsonaro, em um discurso de teor indevido. Stroessner se junta assim a Chávez, Fujimori e Pinochet (sem falar nos brasileiros) na longa lista de ditadores que já mereceram dele menções elogiosas.
Qual verdade?
“A verdade vos libertará”, citou Bolsonaro, em Itaipu. Seria desejável esclarecer qual verdade, pois está difícil entender: a de quem ama a democracia ou a de quem elogia ditadores?