Medicina de Família e Comunidade (MFC) é a designação para uma especialidade médica caracterizada pela atenção integral à saúde e por levar em consideração a inserção do paciente na família e na comunidade. Como informamos na coluna deste domingo (27), o governo estadual, por inspiração do novo secretário de Saúde, Nésio Fernandes (PCdoB), criará uma unidade administrativa voltada à formação de médicos especialistas nessa área para atuar no SUS no Estado. Abaixo, o próprio secretário tira algumas dúvidas pertinentes ao projeto:
Por que o governo deve investir na formação de especialistas em Medicina de Família e Comunidade?
É preciso fortalecer a atenção básica com qualidade. Essa é a grande questão. Os países que tiveram serviços de saúde organizados em níveis de atenção básica, especializada e hospitalar funcionaram porque o profissional que estava na atenção básica não era um generalista, um recém-formado só trabalhando lá um tempinho até passar na residência. Existe uma especialidade médica, que não é o clínico geral de antigamente que cuidava da família durante 15 anos. É uma especialidade que tem uma sociedade médica, uma associação internacional, que se chama Medicina de Família e Comunidade.
O que diferencia esse especialista?
Essa especialidade trabalha com algumas metodologias como o método clínico centrado na pessoa, a clínica ampliada, algumas tecnologias dentro da Medicina onde a gente consegue resolver até 90% dos problemas dos pacientes que chegam com queixa de consulta. Inclusive a atenção domiciliar com qualidade. O médico de família trabalha, por exemplo, com a desmedicalização do paciente. O paciente vai em cinco especialistas e cada um coloca o seu tratamento medicamentoso. O médico de família é esse especialista que consegue ver a interação medicamentosa entre todos e qual é o tratamento mínimo necessário para aquele paciente. Você tem uma bagunça muito grande dentro da área da saúde, e a Medicina de Família e Comunidade é uma especialidade que vem a organizar esse processo, reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina e organizações internacionais.
Como o senhor pretende implementar essa estratégia?
Vamos criar uma unidade, e isso já está pacificado, em que vamos nos responsabilizar, dentro da saúde estadual, pela formação de recursos humanos em saúde para o SUS. Então essa escola, essa organização, vai construir projetos em parcerias com os municípios, para poder prover profissionais que vão, no processo de especialização, atuar nesses municípios e se fixar nesses municípios.
Para esse profissional se fixar em um município, será preciso oferecer-lhe atrativos, não?
Sim. Por isso estamos buscando parcerias. Preciso que o médico especialista em família e comunidade tenha pelo menos dois empregos no interior, para fixá-lo. E, para fixá-lo, preciso que ele tenha uma renda de R$ 18 mil a R$ 25 mil por mês. Eu, como Estado, não consigo fazer isso sozinho. Preciso de parcerias com as prefeituras e filantrópicos.
Essa estratégia é adotada em outros lugares do Brasil?
Há muitos médicos de família e comunidade em Minas, em Curitiba, em Florianópolis. Aqui estamos bem abaixo da média, com apenas 80 especialistas titulados nessa área. Já chegou a 100. Atuando no SUS, não tem nem 20 desses. Quase 60 estão contratados pela Unimed aqui em Vitória.
Quem poderá fazer o curso de MFC?
Qualquer médico que queira se especializar na área e seja aprovado nos processos seletivos a serem abertos.
Quantas vagas haverá?
De 80 a 300 este ano. A meta de Nésio é formar cerca de 200 num primeiro curso este ano, para começar a requalificar a atenção primária no Estado.
Quando começa o curso?
O processo seletivo para a primeira turma deve ser lançado em março.
Quem serão os docentes?
Profissionais identificados dentro da própria rede estadual. Os membros da Associação Capixaba de Medicina de Família e Comunidade serão os coordenadores e, nas palavras de Nésio, o “corpo de inteligência” do projeto.
Qual será o tamanho das turmas?
Pequenas. De dez a doze alunos, no máximo, por professor (ou “mentor”, como Nésio chama).
Onde serão dadas as aulas?
As aulas presenciais serão ministradas no mesmo prédio da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). Mas aí vem outra novidade: o secretário quer se mudar para outro imóvel. O atual, alugado, na Enseada do Suá, custa ao Estado R$ 200 mil por mês. No entanto, o conceito é de “escola” não só como estrutura física, mas como aprendizado permanente também no local de trabalho. O atendimento nos municípios contará como residência médica.