Na próxima semana, a Igreja Católica no Brasil vai lançar mais uma Campanha da Fraternidade. Todos os anos, a Igreja se atém a algum tema de valor social para refletir, debater e contribuir com temáticas relevantes. Neste ano, o tema escolhido é educação. O título desse artigo se encarrega, com ironia, de fazer um paralelo com aquilo que alguns dizem: por que a Igreja está “se metendo” com política?
Há quem pense ou comungue de opiniões de que a Igreja enquanto instituição religiosa não deveria se meter nesses assuntos, mas se restringir aos aspectos religiosos e somente nisso. Mas a Igreja, enquanto instituição de valor e influência, não se restringe nem tampouco se limita às suas liturgias, dogmas e doutrinas, mas avança e se compreende como responsável para ir a uma seara mais exigente e desafiadora.
Quando a Igreja se mete com a educação, ela está falando para o mundo e para sociedade que educação não é coisa apenas de professor e de escola, mas é responsabilidade da sociedade organizada, da família, da comunidade, de todos, isso porque a educação por si só não se restringe à escola, mas ela é a base da estrutura das pessoas a partir da consciência crítica, do progresso no trabalho e, sobretudo, da transformação da sociedade da cultura e da política.
Pensar que a educação é algo muito além da escola, amplia, de certa forma, nossa responsabilidade, incomoda-nos, e tira a educação das quatro paredes da escola. Se tivermos uma educação estruturada, teremos pessoas que pensam, que inovam, que enfrentam desafios e mudanças de tempo e realidade, com discernimento, ousadia. Se temos educação estruturada e colaborativa, isto é, uma educação onde todos estão envolvidos, teremos comunidades (quer de fé ou de organização) evoluídas, e capazes de responder aos desafios do tempo presente.
Quando a Igreja Católica levanta o tema da educação, ela nos leva a todos, independentemente do credo, a unir forças para pensar e sentir a realidade que estamos vivendo. Recentemente, a ONG Todos Pela Educação divulgou uma nota técnica produzida com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de 2012 a 2021. Nela, consta um aumento de 66,3% no número de crianças de seis e sete anos que, segundo seus responsáveis, não sabiam ler nem escrever. O percentual representa 1 milhão a mais de pessoas dessa faixa etária ainda analfabetas, sendo que o problema é mais grave entre crianças negras e pertencentes a famílias mais pobres.
Urge a necessidade de todos nós “nos metermos” na educação, levantar a bandeira da valorização dos nossos profissionais ou quem sabe, criar mecanismos ou formas organizadas de acompanhar mais de perto nossas escolas, as políticas públicas, os desafios e necessidades. Urge a necessidade de crescer na fé se envolvendo em causas que promovam a vida, ainda que muitos pensem que a Igreja não deveria se meter nisso.