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Campanha da Fraternidade

A Igreja Católica torna a bater na tecla da fome

Antes que alguém questione ou veicule que esse assunto é coisa de comunista, lembremos de Dom Helder Câmara: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”

Publicado em 16 de Fevereiro de 2023 às 00:05

Públicado em 

16 fev 2023 às 00:05
Vinicius Figueira

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Vinicius Figueira

Na próxima semana, os católicos do mundo inteiro iniciarão a Quaresma. Tempo marcado pela palavra "conversão", que quer dizer mudança, transformação. Para os católicos do Brasil, a Quaresma vai além, ela sugere uma conversão e mudança que vai além de si mesma, mas toca a realidade. Estamos falando da Campanha da Fraternidade. A atividade foi  assim chamada e realizada pela primeira vez na Quaresma de 1962, em Natal, no Rio Grande do Norte. No ano seguinte, foi se alargando e chega em 2023 com uma adesão de todo o Brasil.
Nessa trajetória, por três vezes a Igreja Católica tocou no problema da fome, que voltou a ser o tema da campanha deste ano. A primeira foi em 1975, com o tema ‘Fraternidade é repartir’ e o lema 'Repartir o pão’. A segunda foi em 1985, com o lema ‘Pão para quem tem fome’. Agora, em 2023, com o tema "Fraternidade e fome" e o lema "dai-lhes vós mesmos de comer".
A fome, enquanto necessidade fisiológica, sempre se fez presente na humanidade como desdobramento da desigualdade e precariedade social. No Brasil esse disparate se torna ainda mais danoso e com mais contraste, uma vez que somos o país que mais produz alimento (para o mundo) e somos também um dos países a ocupar o mapa da fome com um número real que atinge, hoje, cerca de 33,1 milhões de brasileiros.
No ano passado, A Gazeta publicou uma matéria evidenciando o drama da fome em nosso estado, sob a manchete: Sem saber se terão comida, 1,6 milhão de pessoas no ES enfrentam insegurança alimentar. Milhares delas dependem de doações para ter o que comer, mas projetos sociais também passam por dificuldades com a falta de itens para compor cestas básicas e atender aqueles que batem à porta.
A fome é um problema social, ela se desdobra com a pandemia, mas também pela questão fundiária, agrária, e sobretudo, pelo sistema no qual vivemos. O convite da Campanha da Fraternidade é chamar a nossa atenção para essa realidade, lançando luz para todas essas questões, mas, sobretudo, convocando a “dar-lhes vós mesmos de comer”. A fome, a partir de então, passa a ser uma causa que todos nós devemos abraçar, desde a partilha do que temos à cobrança de políticas públicas e projetos públicos que promovam a igualdade de possibilidades em que cada qual com sua força e seu trabalho se sustentem.
A Igreja Católica torna a bater na tecla da fome, enquanto a fome volta a bater à porta de muitos. Antes que alguém questione ou veicule que esse assunto é coisa de comunista, lembremos de Dom Helder Câmara: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”.

Vinicius Figueira

É publicitário. Uma visão mais humanizada dos avanços tecnológicos e das próprias relações sociais tem destaque neste espaço. Escreve às quintas

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