No final da noite desta terça-feira (12), a Justiça estadual decidiu soltar todos os investigados por suposto envolvimento em esquema com sentenças judiciais para saque de heranças. Um deles não chegou a ser detido por estar foragido. Foi determinada ainda a suspensão do exercício da profissão para dois advogados.
A decisão foi do desembargador Sérgio Ricardo de Souza, concedida no final da noite. Ele é o relator do inquérito judicial que tramita no Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) em decorrência da suposta participação do magistrado Maurício Camatta Rangel nas ações criminosas.
Como a concessão do alvará de soltura teria que ser assinada pelo desembargador Sérgio Ricardo de Souza, ele aproveitou e decidiu liberar os demais investigados. O argumento foi o de que com exceção de Fritoli, os outros já haviam apresentado as suas defesas.
Apontou ainda que a determinação de medidas cautelares diversas da prisão, como o uso da tornozeleira, vão ser suficientes para garantir o cumprimento das obrigações processuais.
“Razão pela qual converto as suas respectivas prisões preventivas em medidas cautelares diversas da prisão, estabelecendo para todos as condições, a serem rigorosamente observadas, sob pena de, em não sendo, poder ocorrer nova prisão preventiva”, disse o desembargador.
Com as decisões foram libertos:
Bruno Fritoli Almeida - ex-juiz
Ricardo Nunes de Souza - advogado
José Joelson Martins de Oliveira - advogado
Vicente Santório Filho - advogado que se manteve foragido
Veldir José Xavier
Os procedimentos para liberação de todos os envolvidos na operação foram encerrados por volta das 2h30 desta quarta-feira (13).
Para dois advogados que foram denunciados, Ricardo Nunes de Souza e José Joelson Martins de Oliveira, foi determinada, novamente, a suspensão cautelar do exercício da advocacia.
No texto o desembargador informa que o envolvimento dos dois na trama foi de “significativa importância". Ricardo Nunes foi apontado pela Procuradoria Geral de Justiça como uma das principais lideranças da organização, com a suposta prática de 57 infrações penais.
“Nesse sentido, a manutenção da suspensão do exercício da advocacia dos referidos denunciados (Ricardo e José Joelson) afigura-se como medida essencial para preservar a dignidade do Poder Judiciário e tutelar a confiança dos jurisdicionados no sistema de justiça, severamente abalada pela utilização do nobre ofício para a prática de crimes de considerável gravidade”, disse o desembargador.
Acrescentou ainda sobre o esquema criminoso supostamente estruturado por eles para a apropriação de quantias mediante a distribuição de ações simuladas: “Representa não apenas um crime contra os envolvidos diretamente, mas também uma ofensa à sociedade, que vê o sistema judicial corrompido por quem ocupa função essencial à justiça”.
Finaliza acrescentando que a suspensão do exercício da advocacia permanece necessária e contemporânea. “Não apenas para evitar a ocorrência de novos crimes de igual natureza, mas, também, para tutelar a dignidade do Poder Judiciário e a confiança no sistema de justiça”.
As exigências
Todos os que foram libertos vão ter que cumprir as chamadas medidas cautelares diversas da prisão, previstas nos artigos 319 e 320 do Código Penal. São elas:
Comparecimento mensal, até o 5º dia útil de cada mês, à Secretaria do Tribunal Pleno para provar que está cumprindo as medidas impostas
Ricardo Nunes e José Joelson, advogados, estão proibidos de ter acesso físico ou remoto aos Fóruns do Estado do Espírito Santo, bem como aos sistemas de processos eletrônicos e de informática utilizados pelo Judiciário do Espírito Santo
Proibido contato pessoal, direta ou indiretamente, por qualquer meio, com os demais investigados, com as testemunhas e vítimas, ou seus familiares
Proibição de ausentar-se da Grande Vitória, sem autorização da Justiça
Recolhimento em seu domicílio, todos os dias, no período de 20h às 6h
Para Ricardo Nunes e José Joelson foi suspenso o exercício da advocacia
Uso de monitoração eletrônica, a tornozeleira
Recolhimento do passaporte
A operação
O Ministério Público (MPES) denunciou 20 pessoas por envolvimento no suposto esquema criminoso com sentenças judiciais para saque de heranças. O documento ainda vai ser avaliado pelo conjunto dos desembargadores da corte estadual.
No documento foi apontado que havia um padrão utilizado pelos 20 denunciados nas ações judiciais simuladas e em acordos fraudulentos. Além da urgência no caminhar dos processos, havia a repetição das partes envolvidas, advogados e até de fotografias utilizadas nos processos.
O texto foi encaminhado ao Tribunal de Justiça pelo procurador-geral de Justiça, Francisco Martinez Berdeal, em decorrência da suposta participação de juiz nas investigações.
As apurações iniciais resultaram na Operação Follow The Money, realizada no dia 1 de agosto, por meio da Procuradoria-Geral de Justiça e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco Central e Norte). Fritoli foi detido neste dia.
E jornalista de A Gazeta desde 1996. Antes atuou em A Tribuna. Foi reporter nas editorias de Politica, Cidades e Pauta. Foi Editora de Pauta e Chefe de Reportagem. Desde 2007, atua como reporter especial com foco em materias investigativas em diversas areas.